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1.3.06

As duas cores do escândalo

LITERATURA

Não se sabe ao certo qual é o limite dos grandes escritores para escancarar as hipocrisias da sociedade e desnudar a psicologia humana. Um dos poucos que tiveram o êxito de fazer isso com tamanha avidez foi Stendhal, que, com o modesto objetivo de referir-se à sua França, acabou fazendo de O vermelho e O Negro uma crítica voraz à humanidade.

Ao mergulhar profundamente nos frios objetivos de seu personagem, o jovem Julien Sorel, o célebre autor presta contas de como a mente humana trabalha em sociedade: tal qual um jogo repleto de regras, ataques e auto-defesas. Depois de passar a vida estudando e ter decorado todo o Novo Testamento, Julien vai trabalhar como preceptor dos filhos do prefeito de Verriers, cidade imaginária da França. Lá, utiliza todos recursos que encontra para conquistar o coração da primeira-dama da cidade. Frustrado o adultério após a desconfiança do marido, Julien parte para Paris, onde se apaixona por Mathilde, filha de um marques em cuja casa passa a trabalhar como secretário.

A esta altura o romance já é considerado um escândalo não só por leitores contemporâneos ao lançamento da obra, em 1830, mas também pelos atuais, que sentem na pele o pudor não da moralidade, porém das idas e vindas que as mentes apaixonadas executam, bem como seus planos mirabolantes colocados acima de qualquer coerência. Na verdade, Stendhal deixa livre no ar um jogo de amor e ódio entre pessoas que ora se desejam, ora se repelem: desprezo e asco alternados por total dependência pelo outro, com direito a picos impressionantes de elevada auto-estima e fases de depressão profunda.

Aqui o leitor não encontra meios-termos. Julien é pobre e utiliza os conhecimentos adquiridos em um seminário para alcançar uma posição de prestígio na sociedade, e para tanto, não mede esforços em exarcebar sua sabedoria frente aos nobres. Ao mesmo tempo, parece ter momentos de racionalidade ao recusar algumas propostas de trabalho que aparentemente o elevariam a patamares superiores. Mesmo com essas ressalvas, suas atitudes são regidas pela frieza dos planos de ascensão, embora que para questões sentimentais como o amor, esqueça toda a racionalidade e se entregue completamente ao desafio da conquista. Talvez esteja aí a mesquinhez que aponta Stendhal a respeito da sociedade francesa: um mundo de aparências deve se sobrepor a qualquer verdade, seja ela qual for. Uma vez conquistado o amor de suas donzelas, Julien as despreza completamente. Não é difícil encontrar traços de nossa própria personalidade no jovem francês, embora essa idéia soe asquerosa.

O Vermelho e o Negro leva no nome a alternância de cores fortes, assim como acontece aos sentimentos humanos. Cores que chocam não por acaso: nos fazem enxergar nos outros e em nós mesmos o quanto somos contrários ao que aparentamos ser. Mesmo que nos consideremos mortais comuns e sem grandes ambições. No entanto, sentimos na pele o universo de um herói às avessas, capaz de ferir alguém por amor a outrem, e se apaixonar pela vítima depois do ato consumado.

Tais Laporta
CounterData.com

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