Image Hosted by ImageShack.us

19.3.06

‘Noventa’ anos de solidão


LITERATURA

A velhice acaba de ser reinventada com Memórias de Minhas Putas Tristes (Ed Record, 2005), mais recente romance do Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Márquez. O título pode soar como mera pretensão de contos de bordéis. O mestre da narrativa, no entanto, vai tão longe a ponto de transformar o comércio do prazer em um pretexto para dissecar a alma humana. A crítica, cheia de pudor, tentou injuriar a obra, alegando que ela incita a pedofilia. Isso porque, ao completar noventa anos, o personagem (narrado em primeira pessoa) decide presentear-se com “uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. Sem nunca ter deitado com uma mulher sem pagá-la, o velho descobre, ao tentar realizar uma fantasia, o primeiro amor de sua vida.

Delgadina é o nome da escolhida para satisfazer os desejos do nonagenário. Virgem e pobre, a menina receberá todas as economias do velho em troca de seu corpo. Mas, chegado o momento do encontro, García Márquez expõe as víceras de um ser humano que se depara com fantasmas vivos: o medo da velhice, a ansiedade frente à impotência e a perplexidade diante da pureza. A garota adormecida na cama desperta o sonho de um mundo que ele nunca conheceu. Se sente indigno de corromper tamanha beleza, quase infantil, o que o leva a confrontar desejo e inocência numa poética sobrehumana. Dessa forma, por diversas noites, ele paga a dona do bordel por momentos a sós com a ninfeta, que nunca se encontra acordada na sua presença, e, assim, permanece até que ele vá embora.

Enquanto isso, o velho passa horas em claro admirando Delgadina. Tenta adivinhar detalhes de sua vida e deseja-a mais adormecida do que acordada, para que possa idealizar na estátua de seu corpo todos os amores que não vingaram. Se apaixona louca e gradativamente, em plena velhice, regressando ao ardor de um amor adolescente, vívido – e nunca vivido. Sem jamais ter recebido uma palavra da amada, ele paga o que não tem para sentir sua respiração e compra presentes como se faz a uma noiva. O universo da paixão platônica é tão intenso que, certo dia, se depara com uma enlouquecedora crise de ciúmes diante de sua beleza, o que o faz quebrar com violência todos os objetos do quarto.


Não é a primeira vez que García Márquez escreve sobre amor na velhice. Em Amor nos Tempos do Cólera, ele narra a história de um jovem que, desprezado pela amada, espera toda sua vida, até que ela fique viúva, para experimentar a paixão inconcebida. A diferença é que, em Putas Tristes, o personagem passa de cama em cama, literalmente, durante ‘noventa anos de solidão’, até que, no fim da vida, descobre o amor. E ele é tudo o que jamais viveu e não poderá viver, porque só existe por ser intocável, na plenitude do sono da amada. Lembra, inversamente, o famoso conto de fadas A Bela Adormecida, já que, aqui, o amor só nasce a partir de um beijo, com o despertar da moça.

Pode-se dizer que depois de vastas publicações literárias, nosso autor está menos politizado e mais centrado nos conflitos internos do ser humano. Ele prova que não perdeu o fôlego, apesar da idade avançada. Pelo contrário, se revigora com uma narrativa tão bem costurada quanto às demais, deixando nada a desejar. Afinal, acima de qualquer pretensão erótica, ele ensina que o fim da vida não é apenas tempo de lamentar o não ocorrido, mas é, acima de tudo, uma estação onde os sonhos não podem morrer. Quem se permite viver todas ilusões possíveis não pode deixar de ler esse referencial.

Tais Laporta

5 Comments:

Anonymous Juliano said...

Foi o único livro que lí do Garcia Marquez e achei bem arrastado, apesar de muito poético. Não tenho nenhuma moral para falar sobre a obra dele, mas me pareceu um velho caquético querendo economizar no Viagra escrevendo suas fantasias.

11:37 AM  
Blogger Jornalistas said...

Um belo livro e muito bem escrito. Um romance que nos faz ler e pensar até o fim. García Marquez não escreve só as fantasias dele, pelo contrário, o ponto alto do livro são seus pensamentos sobre a vida, suas confusões mentais. Seus duelos dentro de si mesmo.
Grande abraço.

10:37 AM  
Blogger Tais Laporta said...

Também acho improvável que ele tenha usado de malícia neste livro, embora a crítica o tenha acusado de pedofilia no lançamento. É preciso sensibilidade para perceber as verdadeiras intenções do autor, por sinal muito nobres.

1:08 AM  
Anonymous Augusto Mello said...

Vcs já imaginaram como estamos ficando orfons de nossos melhores escritores. Não quero pensar e nem ser nostaugico, mas td nos leva acrediatar que artistas escritores e poetas como antes não há.
Só msm ele p/ escrever algo com tamanha profundeza sem ser julgar e nem melancólico. Isto é Garcia Marquez. Que o mundo te de lembranças eternas.

3:27 PM  
Anonymous MANELA said...

Um bom livro!
Muitas pessoas não entendem ou não gostam de Garcia, pelo seu estilo fantasioso de dizer verdades que muitas vezes não são agradáveis. Quem ler os detalhes, as sutilezas,livre de qualquer conceito prévio, enfim, quem ler com a alma aprende a AMAR,incondicionalmente,as histórias de Gabo!

10:23 AM  

Postar um comentário

<< Home

CounterData.com

email hotsing
email hotsing Counter