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5.3.06

Ressurreição do velho Woody


CINEMA

Quando ninguém mais ousava esperar produções entusiasmantes do velho Woody Allen, passada uma década de filmes pouco inventivos, o diretor dos antigos roteiros e montagens engenhosas ressurge das cinzas da genialidade com uma tacada certeira: Match Point – Ponto Final (Inglaterra/ EUA/ Luxemburgo/ 2005). Sem alarde nem grandes pretensões, uma trama recheada de lugares comuns – paixão, ciúmes, traição, assassinato – se transforma, nas mãos de Allen, num verdadeiro caldeirão de metáforas. A escolha de Londres, bem como de um elenco jovem e talentoso, são ingredientes decisivos para o desenrolar de um roteiro que parece ter dado tão certo quanto sugere a própria proposta do filme: provar que sorte e azar estão separados por um espaço tão tênue que o fator mais ínfimo pode alterar o destino de uma vida inteira.

Contudo, nada parece tão fatídico numa trama que a olhos desatentos pode ser interpretada como ordinária. Um professor de tênis (Jonathan Rhys-Meyers) dá aulas a um jovem da elite britânica, e logo se envolve com sua culta e polida família, ocasião em que conhece Nola (Emily Mortimer), irmã do rapaz. Visto como partido ideal da correta moça, Chris logo nota que seu relacionamento entediante é ameaçado pela atração arrebatadora que sente pela futura cunhada. A paixão é inevitável, e vai se estender ao limite de encurralar o personagem a uma decisão crucial: abandonar a vida bem-sucedida com a esposa, ou ignorar a paternidade que deveria assumir ao lado da amante grávida. Até aí, o velho clichê dos triângulos amorosos, explorado à exaustão pelo cinema. Porém, mesmo quem já não tem fôlego para a sequência adultério-gravidez-arrependimento, não pode ficar indiferente à profundidade crescente que a trama conduz em torno do personagem.

Neste ponto mora a riqueza da produção, repleta de referências a grandes clássicos, mais explicitamente à obra-prima de Dostoiéviski, Crime e Castigo. Quem leu o livro nota que, principalmente quando Chris opta pelo crime, a comparação é inevitável – não necessariamente como um paralelo, porém como releitura e, ainda, contestação ao clássico russo. Ousadia demais, diriam mentes feridas. Mas não, lê-se como mera inteligência e originalidade. Allen remonta um paralelo às avessas mostrando que, diferente do livro, nem sempre o fim inexorável de um crime é o castigo. Casualidades podem, ao menos na sacada do diretor, presentear o criminoso com um destino feliz. Claro que não é fácil aceitar essa idéia quando ela vem à tona na tela do cinema – razão de muitas expressões de indignação, é verdade, com as surpresas que o roteiro reserva.

Elementos passíveis de comparação também esculpem a montagem, colocando em confronto mundos que se chocam sem se encostar. O personagem central é a parede que divide esses universos: a aristocracia londrina e o despojamento americano; o tédio do casamento e a exitação adúltera; a moral e a anarquia; a culpa e a inocência; o castigo e a absolvição. Diálogos habilidosos, diretos e precisos estão presentes à maneira das antigas obras-primas de Allen, mais uma prova de sua ressurreição cinematográfica. Uma trilha sonora densa, operística, explora a atmosfera que rege o mundo interior dos personagens. Sequências e cortes que dizem por sí só, sugerem, escondem, deixam no ar...Ao contrário das expectativas, o bom e velho Woody recuperou a vitalidade que parecia perdida para sempre – contornada por um ponto decisivo, ou melhor, o seu Match Point.

Tais Laporta

3 Comments:

Anonymous Ronald Rios said...

Eu devo ser o único fã de Allen que teima em gostar de tudo. Atitude errada? Talvez, mas passional, meio perdoável =)

Para você ter uma idéia, eu acho Hollywood Ending um filme bom. Tem a ver com o fato de ter sido o primeiro Allen que peguei. O seu estilo batido - mas vivo - de atuação naquela persona misantrópica me chapou na hora.

Match Point sim, tem frescor e todos amam. Eu também. Mas sei que Woddy acha bobagem o que a gente pensa ou deixa de pensar sobre seus filmes.

Belo texto =D

1:36 AM  
Anonymous Juliano said...

Allen é ótimo e passeia pelo humor ácido como ninguém.

1:29 PM  
Blogger Tais Laporta said...

Ainda não encontrei quem não tenha apreciado o filme. 'Inteligente' é a melhor definição, a meu ver.

1:00 AM  

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