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5.4.06

Fronteira invisível

CINEMA – DOCUMENTÁRIO

Quanto tempo leva para descobrir o Brasil? Pouco mais de uma hora, pelo menos para os que acompanharam um dos documentários nacionais exibidos no festival É Tudo Verdade. Na contramão de reportagens pretensamente inovadoras da TV aberta, que inflamam o telespectador com o círculo vicioso das mazelas urbanas (tráfico, prostituição, pobreza), alguns longa-metragens ainda têm fôlego para vasculhar os buracos negros de um país desconhecido. É o exemplo do bem-sucedido Do outro lado do rio, de Lucas Bambozzi, re-exibido em 2006 depois de receber o prêmio de melhor direção em outra edição do festival.

O diretor elegeu o ponto mais alto, e também obscuro, do mapa do Brasil: a cidade do Oiapoque, no Amapá, fronteira com a Guiana Francesa, colônia da França separada apenas por um rio do país tropical. O trajeto fluvial cujo destino é a cidade fronteiriça Saint Georges de L`Oyapock é sempre uma aventura que pode custar cabeças humanas. Isso porque, embora divisa aparente calmaria, a imigração somente é legal sob autorização, um privilégio raríssimo, situação semelhante à linha divisória do Texas (EUA) com o México. Brasileiros não são bem-vindos na colônia, embora a fronteira seja um abrigo quase exclusivo de refugiados, prostitutas, garimpeiros e aventureiros, responsáveis por tornar a língua portuguesa um dialeto dominante no território.

Bambozzi explora a sensibilidade dos personagens de forma gradativa e surpreendente, fazendo-nos acompanhar, do começo ao fim, histórias, sonhos e trajetos que começam bem e terminam quase sempre em tragédia ou decepção. São estereótipos marcantes: o refugiado do exército brasileiro que ganha a vida nos garimpos; a prostituta que foge da fazenda dos pais em busca de diversão e ouro; o travesti que sonha com a ascensão em Paris; a mocinha pobre que procura um francês para se casar. Quase todos desconhecem a magnitude da situação política e econômica da colônia por onde transitam sem permissão. Rica em recursos naturais, a terra atrai homens aos garimpos em troca de recompensas promissoras, o ouro, moeda corrente da região, depois do Euro. É comum a saga de homens que deixam famílias para se aventurar nas selvas da colônia, de onde não raramente jamais regressam.

Soa inacreditável, mas a “França”, destino dos sonhos de muitos aventureiros, nada mais é que Caiena, a capital da Guiana Francesa, um reduto de turistas europeus e abrigo da Estação Espacial Européia, cercado por uma população indesejável e marginalizada, sobretudo imigrantes brasileiros e latinos. Reconhecida como terra natal de poucos, a capital possui 50 mil habitantes, dos quais 20 mil são estrangeiros. Mas a ignorância e ausência de leis está mesmo na divisa entre territórios inexplorados. No Oiapoque, andar armado é uma necessidade individual de prevenção, tanto que lojas de pistolas ficam abertas como camelôs. Não é por poucos motivos, afinal, que pessoas chegam e desaparecem a todo momento sem qualquer explicação.

A equipe do documentário, com o apoio do governo francês – TV Cannes – e leis de incentivo brasileiras, mergulhou a fundo nas entranhas dessa realidade, como é notável pelos longos meses em que acompanharam os personagens da região. Grande trabalho de apuração e edição. O Brasil precisa de filmes produzidos com semelhante coragem e iniciativa para se descobrir novamente.

Tais Laporta

3 Comments:

Anonymous Hernandes Aguiar said...

É difícil não se deixar seduzir diante de um tema como este. É prazeroso viver num país onde o cinema é tratado como patrimônio cultural e não como bem de consumo.
Obrigado pelo presente, Taís.

11:58 PM  
Blogger Tais Laporta said...

Hernandes,
Você tocou no ponto certo na questão do patrimônio. Concordo plenamente, só lamento que poucas pessoas se interessem por esses tesouros produzidos no Brasil.

1:03 AM  
Blogger Marília Almeida said...

Não tem, realmente, como um tema desses não suscitar emoções ou, pelo menos, o mínimo de curiosidade. Como não haviam pensado nisto antes? Parabéns pelo belo texto, Tá.

3:12 PM  

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