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28.4.06

NASCIDOS EM BORDÉIS

DOCUMENTÁRIO
O Bairro da Luz Vermelha, em Calcutá, é uma das regiões mais pobres da Índia: ruas apertadas e sujas, veículos antigos, mendigos, pedintes, prostitutas e bêbados. Em que outro lugar é possível explorar melhor os vulcões da miséria humana? Uma dupla de documentaristas, Zana Briski e Ross Kaufman, contudo, conseguiu extrair talento e sensibilidade ocultados no bagaço da pobreza, o que resultou no filme Nascidos em Bordéis (Born Into Brothels). As personagens da produção são crianças filhas de prostitutas que, apesar do futuro insólito a que estão fadadas, demonstram uma tímida inocência e vontade de trilhar um caminho diferente de suas mães e avós.

Mas o documentário não se limita, a exemplo de inúmeras produções, a expor a condição sombria de crianças semi-escravizadas que vivem em prostíbulos. Ao contrário, assume o papel de agente transformador da realidade retratada: Zana trabalha como professora voluntária de fotografia das crianças. É o momento em que podem esquecer suas vidas para sair às ruas com uma câmera na mão, à cata de tudo o que desejam registrar. Revelados os negativos, as imagens são surpreendentes: verdadeiros profissionais mirins capazes de registrar detalhes de autêntica sensibilidade.

Pela primeira vez, a fachada mais discriminada de nossa cultura, a de “filhos da puta”, perde espaço para um perfil mais humano, cujo interior revela a condição universal da infância e do talento, indiferente da natureza social. Não por acaso, a produção chamou a atenção da crítica e do público pelo seu caráter participativo, embora fosse um filme de baixo orçamento, o que lhe rendeu um Oscar de melhor documentário em 2005, além do prêmio de público no festival Sundance. Os documentaristas realizaram uma exposição em Nova York com as melhores fotografias das crianças, no intuito de levantar fundos que custeassem seus estudos, única alternativa para driblarem o futuro.

Infelizmente, no entanto, o dinheiro não foi suficiente para eliminar uma cultura enraizada de subsistência nas famílias dos pequenos fotógrafos. Permitir que o filho fosse estudar em um colégio interno – privilégio para poucos na região – significava perder um auxiliar doméstico e um futuro empresário familiar da prostituição. Outro obstáculo, ainda maior, foi a relutância dos colégios em aceitar crianças descendentes de meretrizes. Todas foram obrigadas a se submeter a testes de HIV, caso contrário, seriam recusadas. O esforço dos documentaristas em oferecer uma nova opção de mundo a esses fios de vida está demarcado nas silenciosas e coloridas cenas de Nascidos em Bordéis. Este é um dos casos em que a sensibilidade fala mais alto que a técnica ou quaisquer outros recursos do cinema. Vale a pena conferir.

Taís Laporta

6 Comments:

Blogger Mar said...

Well... é o que sempre digo: -Bem vindo ao planeta Terra. Possivelmente o planeta mais lindo de todas as galáxias, onde se esconde talvez a maior dor de todo o cosmo. O comportamento humano chega a ser piegas... -Se houvesse um controle de natalidade haveria espaço, trabalho e vida digna para todos. Sem controle.. restam muitos sonhos onde poucos deles se transformam em realidade. Essa tua publicação.... me obriga a me retirar por hora da net.. para mais uma vez meditar em procura de respostas. Boa noite.. bom final de semana. Nota mais de 10 para tua reportagem.

6:25 PM  
Blogger Discaciate said...

Engraçado, a minha postagem mais recente foi exatamente falando desse belo documentário.

Um dos meus prediletos de todos os tempos. dividindo um lugar de honra com o também genial Corações e Mentes.

O texto ficou muito bom. Parabéns.

8:04 AM  
Anonymous Juiliano said...

Muito bom e sensível o texto. Deu vontade de assistir.

11:57 AM  
Anonymous Hernandes Aguiar said...

Indicação nota 10! Que tema para um documentário! Muito sensível e oportuno. A abordagem da Taís consegue ser ao mesmo tempo poética e objetiva.

2:35 PM  
Anonymous Rafael said...

Esse é um dos documentários que mais me provocou desconforto. Bem legal mesmo. Só não concordo em dizer que ele assume o papel de agente transformardor - na verdade, não concordo em elogiar isto. Documentaristas são documentaristas, e não heróis. Seu objetivo é o registro. Seu trabalho, se tiver que apresentar alguma benesse, que seja investigativa. Que os resultados sejam utilizados em proveito da sociedade.

É uma postura que Michael Moore assume em "Tiros em Columbine" e que consegue, por um instante, estragar um dos documentários mais sensacionais da História. Não tiro os méritos da diretora e de seu trabalho como fotógrafa. O resultado das oficinas com as crianças, por sinal, é maravilhoso.

Mas, bem, esse é o meu ponto de vista.
Prazer em conhecer o seu blog. :]

9:30 PM  
Blogger Ciencias Contabeis said...

Excelente trabalho, esse documentário mexeu muito comigo vendo como crianças tão pequenas que deveriam ser impulsionadas ao bem a realização de sonhos vivem fadados ao mundo obscuro que tenta afogar qualquer chance de uma vida feliz e mais digna, roubando a pureza da infância que vai se dissipando em meio a tudo isso, fico feliz que tenha pessoas com essa sensibilidade de retratar e buscar ajudar na construção de um mundo melhor, lembrando que todos podemos ajudar cada um a sua maneira na construção de um mundo melhor, o pouquinho que fazemos hoje será o diferencial do amanha.

11:16 AM  

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