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11.5.06

Os delírios de Borges

LITERATURA

Os latinos nasceram com o sexto sentido. Garcia Márquez, mestre em fundir fantasia e realidade, e Júlio Cortazar, inventor do sobrenatural no acaso humano, já sondavam o realismo mágico quando o argentino Jorge Luís Borges consolidou-o, sem querer, na literatura. Já devia estar no sangue dos antepassados, mas o fato é que Ficções, seu livro mais conhecido, reúne em 18 contos a perfeita lógica do absurdo. Tão absurdo que o leitor, se rejeitar os labirintos do livro, corre o risco de perder-se e não encontrar o caminho de volta.

Um dos mais intrigantes contos do escritor é Biblioteca de Babel, que descreve um lugar onde estão todos os livros do mundo, até os que nunca foram escritos. O espaço reúne escrituras com todas as combinações ortográficas, em todas as ordens, sendo que nenhuma é idêntica à outra e muitas diferem apenas por uma letra. A biblioteca possui livros em todos os idiomas, inclusive os que ela própria criou. “A certeza de que tudo já foi escrito nos anula, ou nos fantasmagoriza”, aponta Borges ao narrar o terror de personagens que escalam prateleiras sem fim. O conto provoca o cerne do inconcebível, mas, como metáfora, é mais real que se imagina: quem sabe onde termina o universo?

A Biblioteca de Babel

Borges acreditou que fantasia não é a arte do impossível. É, com convicção, a lógica de todas as possibilidades a que o homem não tem acesso. A literatura foi um meio de fundar um novo gênero para suas divagações, em uma mistura de ficção e ensaio que engloba as mais complexas ciências humanas, razão pela qual pessoas acostumadas com fórmulas mais comuns podem repelir a leitura. Imagine que ao se deparar com contos como Funes, o Memorioso, é preciso conceber que um homem era incapaz do esquecimento, e, por isso “sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do 30 de abril de 1882 e podia compará-la na lembrança com as listras de um livro espanhol que vira uma só vez”. Sobre-humano demais para povos que cultuam as mitologias gregas e o halloween.

A brincadeira de subverter as noções da realidade rendeu boatos de que Borges poderia ter ganho o prêmio Nobel de Literatura se não fosse a desconfiança de que sua própria identidade não passava de um jogo semelhante às histórias que criava. Merecedor ou não, o escritor deixou um legado de suposições que intrigam até hoje críticos, filósofos e leitores. Seus contos são uma aventura de caça-palavras, como Loteria em Babilônia, que lança uma nova visão sobre os jogos de sorte. A história narra que as casas lotéricas eram consideradas uma atividade fracassada. “Não se dirigiam a todas as faculdades do homem: unicamente à sua esperança”. Diante da indiferença pública, os mercadores intercalaram as possibilidades de ganho com as de perda, dobrando a chance de ganhar, e, ao mesmo tempo, de pagar uma multa sobre o prejuízo causado pela sorte alheia. Como a natureza humana é universal, suas conseqüências também fazem parte da literatura borgiana.

Em nenhum dos contos há espaço para afirmar que Borges é comum ou razoável. Os raciocínios não se repetem e o único ítem com presença constante é o livro, paixão assumida do escritor. Admirador de Schopenhauer e predecessor da onda de histórias fantásticas lideradas na América Latina, Borges afirmou que escrever é um processo infinito que deve ser interrompido. “Publicamos para não passar a vida corrigindo rascunhos. Quer dizer, a gente publica um livro para livrar-se dele”, confessou certa vez, mas acredita-se que a ânsia em terminar um volume era o desejo de começar o seguinte. Sem dúvida, desenvolveu uma vasta produção literária ao longo dos 85 anos de vida.

Tais Laporta

4 Comments:

Blogger cronista cronico said...

me gusta muchísimo leer críticas y análisis de Borges, casi como si fuera un género literario. y debo confesar que también me gustan las hechas en portugués. Y aunque no sea Premio Nobel, está bien así: es un gesto de absoluta finitud de los hombres, lo que, creo, a borges le cae bien.

4:52 PM  
Blogger cronista cronico said...

me gusta muchísimo leer críticas y análisis de Borges, casi como si fuera un género literario. y debo confesar que también me gustan las hechas en portugués. Y aunque no sea Premio Nobel, está bien así: es un gesto de absoluta finitud de los hombres, lo que, creo, a borges le cae bien.

4:53 PM  
Anonymous Hernandes Aguiar said...

Nunca li Borges, mas depois desta, quando o fizer já não será sem nenhuma referência. É notável a capacidade de análise da Taís. Sigo seus textos como quem segue um guia numa noite escura, que porta a única lanterna.

8:49 PM  
Anonymous Anônimo said...

Borges é. E os adjetivos que se seguem sempre resvalam na figura surreal e ambígua que ele foi, com sua escrita forte, certeira e, ao mesmo tempo, múltipla e misteriosa. Blog já no bookmark.

Tenho dois links a sugerir, creio que serão de interesse:

http://naselva.com
http://naselva.com/brutti

Grande abraço!

Ernesto Diniz
http://ernesto.naselva.com/blog

5:38 PM  

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