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3.6.06

O melhor do lado B

MÚSICA*

Se estivessem vivos, os velhos mestres da MPB certamente ficariam orgulhosos em testemunhar a redescoberta de pérolas musicais desconhecidas. Os amantes de raridades, pelo menos, já podem comemorar: a seleção de um repertório singular se concretizou com o casamento de flauta e piano no recente CD homônimo dos instrumentistas Andréa Ernst Dias e Tomás Improta, lançado pela Biscoito Fino. O álbum reúne somente o melhor do lado B dos principais compositores, com gêneros que passam pelo choro, bossa-nova, jazz, erudita e terminam no impressionismo francês. O resultado do trabalho pôde ser conferido no show de lançamento do disco, no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo. Os músicos subiram ao palco no último dia 9 de maio, durante o Instrumental Sesc Brasil, projeto que reúne a cada semana vertentes consagradas da MPB.

O álbum não se limita ao virtuosismo da dupla de intérpretes, veteranos no cenário musical, mas traz como carro-chefe as facetas desconhecidas de grandes compositores: um Tom Jobim mais denso e obscuro (“Estrada Branca”), Jacob do Bandolim com uma graça inédita (“Cristal”) e Moacir Santos como pouco se viu (“Coisa 9”). O repertório traz ainda Edu Lobo e Chico Buarque (“Choro Bandido”), Pixinguinha (“Só para mim”), Villa-Lobos (“Saudades da Minha Vida”), Garoto (“Meditando”), Dorival Caymmi (“Horas”) e Gabriel Fauré (“Après Un Revê”). "Escolhemos as melhores e mais raras melodias exploradas pela flauta", explica Andréa, acostumada a acompanhar orquestras de câmara e rodas de choro desde pequena. Confiante no trabalho ímpar realizado pelo pianista, ela completa: "Tomás privilegiou harmonias refinadas, realçadas com propriedade nos seus arranjos".
Sem contestações, Improta mostra que possui maturidade de sobra para improvisar ao piano, imprimindo grande intensidade musical com um tom incisivo e marcante. Além de gravar ao lado de Caetano Veloso, Djavan, Nara Leão, Luiz Melodia, Baden Powell e Chico Buarque, o pianista conhece profundamente a MPB e o jazz, é jornalista, protagonista de uma série de discos solo e escritor de livros didáticos sobre música. Sob a luz do palco, é notável que sente os arrepios provocados pelos acordes na platéia. A parceria com a flautista carioca só poderia resultar em uma bela harmonia de contrários, já que ambos traçaram percursos distintos na música, ainda que, juntos, conseguiram equilibrar emoção e disciplina no tempo certo.
"Edu e Moacir gostaram muito do que ouviram", garante Andréa em resposta ao balanço inicial do álbum. Cuidadosa e concentrada, ela demonstra uma intimidade perfeita com a embocadura da flauta. Emite vibratos (ondulações no som) incorrigíveis, mérito dificílimo para um instrumento com grande desigualdade de registros. Para ressaltar, os flautistas devem possuir domínio absoluto sobre os agudos, extremamente sensíveis a variações, bem como o controle correto da respiração pelo diafragma, e, ainda, sensibilidade para qualquer alteração na afinação. O próprio Pixinguinha (a quem os músicos fazem questão de dedicar o álbum), gigante do choro e merecedor do título de maior flautista do Brasil, quando adoeceu, nunca mais conseguiu recuperar o domínio do instrumento, motivo que o obrigou a trocar a flauta pelo saxofone, tamanha a sua complexidade.
O disco é o primeiro trabalho solo da flautista, dona de um portfolio musical abrangente, com destaque para a participação no último CD de Chico Buarque, Carioca, que também leva o selo da Biscoito Fino. A escolha do repertório foi conseqüência de um concerto apresentado pela dupla no Rio de Janeiro. "Grandes músicos como Fauré, Cole Porter e Villa-Lobos compuseram inicialmente suas canções para voz e piano. São serestas incontáveis, praticamente inéditas de tão desconhecidas", revela Improta, que criou novos arranjos para os originais, substituindo a voz pela flauta. Adaptações também marcam a tônica do álbum, como aponta Andréa. "Decidimos adequar o choro tradicional de Pixinguinha para uma levada de tango, e o clima da canção de Tom Jobim, desconhecida inclusive para seguidores da bossa-nova, ganhou uma envoltura semelhante à new age." A façanha para o improviso é tão notável quanto a disciplina, o que permite a alternância de funções entre flauta e piano, ora melodia, ora percussão. Tais propriedades só poderiam resultar em uma sonoridade fascinante. Mérito raro, ainda mais nestes tempos, quando nem os revivals de mega-clássicos parecem dar um gás na saturação criativa das últimas décadas.
* Publicado no DigestivoCultural.com
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