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4.7.06

Desfeito como pó

CINEMA


Adaptações literárias para o cinema nunca são bem recebidas pelos respectivos leitores, ferrenhos defensores dos preciosos originais do autor em questão. O debate é quase sempre envolto de um purismo sem sentido. Ele já andou acontecendo na adaptação de best-sellers de Dan Brown, Código da Vinci. O cerne do problema é que a linguagem cinematográfica exige um resumo e uma certa compressão de devaneios literários que podem arrepiar os fãs mais calorosos.

Isso também acontece com Pergunte ao Pó, adaptação do romance homônimo publicado em 39 de John Fante. Visto com desdém pela crítica nacional, o acalentado sonho de 30 anos de Peter Towne parece ser facilmente desfeito. Ganhador do Oscar por Chinatown, que também retrata o período da depressão e a cidade de Los Angeles, Towne conheceu Fante nas filmagens e logo quis levar seu romance a cabo nos cinemas. Após um caminho tortuoso, de troca de autores e burocracias quanto aos direitos autorais do romance, Towne dirige em parceria com Tom Cruise, que mais uma vez se envereda pelos caminhos da produção. Colin Farrel e Salma Hayek foram enfim escolhidos para o papel do casal de protagonistas, Arturo Bandini e Camilla Lopez.

No auge da depressão da década de 30, o escritor descendente de italianos Bandini, alter-ego do autor, vive às voltas com algo que o atormenta: escrever uma grande obra e alcançar o reconhecimento. Ganhando trocados em troca de pequenos contos em uma Los Angeles sóbria, segue sonhando até conhecer a imigrante mexicana Camilla, garçonete do Café Columbia. O que começa como uma relação de troca de insultos culmina inevitavelmente em um romance de dois opostos à primeira vista, mas que teimam em se manter juntos, como dois marginais que só têm um ao outro.

O filme soa muito bem em sua maior parte, pois consegue manter o clima entediante onde Bandini está inserido e mergulha cada vez mais enquanto luta por idéias grandiosas que nunca aparecem. Sua amante, Vera, interpretada por Idina Menzel, é uma das boas surpresas da primeira parte do longa. Uma relação tocante e tensa que se desenvolve entre os protagonistas se delineia na tela em belas cenas, como a ida do casal à praia, à noite. Os diálogos e atuações não ficam devendo muito ao original. Apenas a distância suficiente em se tratando de uma adaptação literária que, inevitavelmente irá ser analisada de maneira complexa e muito subjetiva.


Ao se caracterizar como um romance de um autor que fez parte de um movimento que quebrou padrões estéticos e revolucionou a escrita ao tocar em temas vulgares como o ofício pouco valorizado do escritor, a depredação econômica nacional e o clima de desesperança que o envolveu, Towne não poderia simplificá-lo na questão racial do grande fluxo de imigrantes da época. A simples idéia de dar atualidade a uma época tão singular na história dos Estados Unidos soa forçada e se caracteriza como uma tentativa de soar moralmente defensável ao jogar a culpa dos problemas nos próprios personagens, em uma época de grandes greves de imigrantes no país, vide 1º de maio.

Não que os personagens não vivenciem o drama e ele não esteja no principal foco do romance de Fante, mas é que a atenção ao tema se torna tão veemente que acaba por quebrar o encanto de um filme simples e singelo. O ápice deste deslize pode ser verificado no final do longa de Towne, que acaba por distorcer e mudar o romance de Fante, assim como a atuação dos personagens, que também se perde. A crise existencial do escritor e o pano de fundo do romance, marcante nas reflexões de Bandini na cena do terremoto, muito pouco explorada, são deixadas para trás.

Talvez a resposta para esta guinada resida na dificuldade encontrada por Towne para conseguir financiamento para o filme e até mesmo o dedo de Tom Cruise na produção. Diretores são obrigados muitas vezes a tornar o filme mais apetecível ao público do cinema. Mas Towne não consegue nem um nem outro: é um filme B que tenta com desespero chegar ao status de filme A. Uma pena. Poderia ter continuado onde está e teria feito uma bela adaptação de um dos romances mais marcantes da desilusão que se constituiu a Depressão Estadunidense, o que o firmaria como um contemplador do tema.

Marília Almeida

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