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25.7.06

Literatura universal do Sul

LITERATURA*

Um escritor de ideais regionalistas, mas com temática universal, não pode ficar confinado em sua terra natal por muito tempo. Charles Kiefer, no entanto, resistiu quase três décadas nos pampas gaúchos – 30 livros e 3 Prêmios Jabutis – até sucumbir à Editora Record, que vai relançar toda sua produção literária em escala nacional. É a primeira oportunidade para o leitor do centro e norte do Brasil se aproximar com mais intimidade do autor, que com a intenção de preservar os detalhes do Sul, produziu uma coleção onipresente sobre o drama humano.

Ao lado de Quem faz Gemer a Terra (romance de 1991 sobre as questões agrárias do MST), a Record acaba de colocar no mercado Logo Tu Repousarás Também, uma coletânea de 14 contos independentes, que carregam narrativas curtas, porém densas, tecidas com linguagem simples e sugestiva. O mais difícil na construção de um drama – chocar sem ser fatalista ou comover sem forçar a barra –, Kiefer cria com naturalidade em enredos demasiadamente humanos. Em outras palavras, não é difícil encontrar a natureza interior que nos assola travestida nos seus personagens. O clima do livro confere uma face aterrorizante à banalidade, levada ao extremo nas histórias pelo neo-realismo literário do autor.

Um dos trechos mais intensos da coletânea se encontra em O Boneco de Neve. O conto deixa no ar a incômoda sensação de que os cenários angelicais também não estão livres das tragédias: “No meio da tarde, sob um céu carregado de nuvens baixas e cinzentas, ele nos convenceu a cobri-lo, a transformá-lo num autêntico boneco de neve. Excitados, eu, Maneco, Juca e João Carlos, todos meninos, todos inocentes, e incendiados todos pela branca irresponsabilidade da infância, cobrimos primeiro suas pernas, e depois o seu tronco. Não recordo em que momento percebemos que ele não respirava mais.”

Kiefer dá prioridade ao universo psicológico dos personagens, exposto nas entrelinhas de diálogos e pensamentos, em detrimento das frias descrições, deixadas em segundo plano. Em diferentes cenários e sob várias vozes narrativas, os contos carregam ora o peso da fatalidade cotidiana, ora da tranqüilidade enfadonha. É assim em Medo, quando um taxista, ex-torturador da Polícia Militar, percebe que seu passageiro é também seu ex-torturado. E o conflito desse reencontro inesperado se exterioriza pelos reflexos do espelho. “Pelo retrovisor, vi seus olhos verdes, tensos, quase suplicantes, como que em busca de um registro, um detalhe que conectasse a voz que o angustiara a um rosto, a um episódio”.

Na economia descritiva, o leitor identifica com rapidez o mundo antagônico dos personagens, como no conto Belino, em que um policial rodoviário chora em público, com o revólver na mão, pela morte de seu passarinho congelado de frio, graças ao esquecimento de um subordinado. Quando a indiferença dos colegas se choca com o intenso sofrimento do guarda, Kiefer confronta universos psicológicos bilaterais. “Que horror, pensei, o velho deu alpiste ao canário por mais de uma década, e deu água. E limpou a gaiola, todos os dias (...) Meu Deus, a vida num posto da Polícia Rodoviária Federal é a coisa mais monótona do mundo”.

Em outros momentos, elementos fantásticos se misturam ao realismo, como nos contos Lídia e o Rabino e Rosa Rosarum. Este último é uma tentativa de reconstruir as origens da "Biblioteca de Babel", conto universal do argentino Jorge Luis Borges – um verdadeiro quebra-cabeça literário. Aliás, Kiefer não esconde a admiração pelos autores que mais influenciam sua obra, entre eles Franz Kafka, Anton Tchekov, além do próprio Borges. Inclusive um dos contos do livro, "Insônia", traz como personagem ninguém menos que Tchekov, na pele de Antocha Tchekonté.

Ainda que Kiefer faça questão de preservar seu patrimônio regional na literatura, como a ideologia agrária dos gaúchos e o uso do “tu” em todos os textos, já estava na hora de apresentar, com projeção nacional, o rigor narrativo desse descendente de alemães, nascido em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, Três de Maio. Embora desconhecido na maior parte do território brasileiro, não se pode dizer que a visibilidade com a Record vai colocá-lo no time das revelações, hoje ocupado por uma leva de novos autores. Kiefer pertence a uma categoria bem mais segmentada. Mais precisamente, a dos veteranos regionais em expansão.

Tais Laporta

* Publicado no Digestivo Cultural

1 Comments:

Blogger Marco Aurélio Antunes said...

Gostei do texto que tu escreveste, Tais. Na Internet eu costumo usar o "você", mas falo mais o "tu". De vez em quando eu uso o "tu" na língua escrita...
A literatura brasileira tem mesmo autores que não são muito conhecidos fora de seus estados, embora os seus trabalhos sejam de alta qualidade. Penso não só no Kiefer, mas também em autores do Nordeste, como o Ângelo Monteiro e o Alberto da Cunha Melo.
O ArteFato está cada vez melhor. Sou um dos leitores fiéis...
Abraços.

8:43 AM  

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