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11.7.06

TV Made in Brazil

TELEVISÃO*

A TV aberta no Brasil é uma das mais fechadas do mundo para as produtoras independentes. Ao contrário dos países Europeus, aqui, o governo não fornece subsídios para a produção de ficção ou documentários destinados à televisão (as leis de incentivo ao audiovisual beneficiam tão somente o cinema) e as grandes emissoras não pretendem investir um tostão em negócios desse tipo. No entanto, se por um lado o cenário nacional é desolador, por outro, países estrangeiros estão de braços abertos para fazer parcerias e co-produções que beneficiem ambas as partes. E, ao que tudo indica, esse elo está começando a dar certo: foi a impressão deixada durante o 1º MITV – Mercado Internacional de Televisão, evento que integra o calendário internacional de conteúdos para televisão, realizado nos dias 05 e 06 de junho, em São Paulo.

O exemplo mais nítido de como nossas produtoras aprendem a driblar a falta de incentivos nacionais é a exportação de seus projetos. Para tanto, a ABPI-TV – Associação Brasileira de Produtores Independentes para Televisão, alavancou uma idéia inusitada: criou o Brazilian TV Producers, marca internacional que divulga os projetos brasileiros para canais do mundo todo, como esclarece o presidente da entidade, Fernando Dias. “Queremos levantar fundos para co-produções, aproveitando o interesse de países como França, Alemanha, Espanha e Itália, que recebem subsídios generosos para produções desta natureza”. A missão, desde então, tem indicado números positivos. O país fechou acordo com 13 países e levantou quantias superiores a U$ 24,5 milhões para o setor.

Contudo, se é perfeitamente satisfatório que algumas produtoras brasileiras estão desenvolvendo ficção e documentários de peso para gigantes como National Geografic e Discovery Channel, é também um desalento notar que os canais nacionais não investem um centavo em conteúdos independentes, repetem as mesmas fórmulas e copiam padrões estrangeiros. “A disparidade entre o que é oferecido pelas produtoras e as expectativas dos canais de televisão é colossal. Formatos com viabilidade comercial ainda são os programas diários de auditório, que atraem receita de anunciantes, e as telenovelas, que sempre são um bom negócio”, aponta, com sinceridade, Marcelo Parada, vice-presidente da TV Bandeirantes.

Doa a quem doer, o panorama atual do mercado de televisão é o seguinte: enquanto os canais internacionais estão de olho em projetos com qualidade de conteúdo (Michella Gioretti, diretora de produção da Discovery aconselhou os brasileiros a trazerem “coisas novas, fatos que estão mudando a história”), a TV brasileira continua se gabando pelo modelo exportador de suas novelas e reality shows de audiência exorbitante, ao passo que rejeita a chamada “programação especial para o cabo”. Ainda assim, numa terra onde a qualidade não atrai público nem receita, as produtoras independentes tentam reverter o quadro transformando água em vinho, isto é, adaptar a mentalidade de equipes inteiras que estão voltadas, por razões comerciais, ao mercado publicitário e, em menor escala, ao cinema.

Michella Gioretti, da Discorevy Channel: prioridade para o conteúdo

Carla Affonso, diretora geral da Endemol Globo, conta que quando a empresa fechou uma parceria com um canal Francês para filmar nas matas do Brasil, as equipes locais tiveram dificuldades. “A mão-de-obra para formatos inusitados deixa a desejar no Brasil. Aqui é mais cinema”, admite. Apesar de as empresas de TV nacionais só importarem modelos do exterior, como reconhece Carla, elas também precisam se reinventar. Para tanto, estão aprendendo a lidar com multi-plataformas – a introdução de novas mídias na programação. “Os portais de voz e outros aplicativos de interação com o espectador agregam audiência e dinheiro”, constata a diretora, citando o exemplo bem sucedido do Big Brother Brasil no mercado.

Produtos deste tipo compõem a fórmula comercial mais lucrativa para as TVs abertas, um panorama bem diferente dos canais a cabo, que ainda priorizam o conteúdo. Mas o Brasil começa a se aventurar timidamente pelas bandas das multinacionais. Uma experiência recente mostrou como é possível aproveitar brechas na legislação brasileira para efetivar parcerias: em 2005, a Conspiração Filmes produziu para a HBO a primeira série de ficção brasileira em um canal a cabo, Mandrake, protagonizada por Marcos Palmeira. O projeto só aconteceu graças ao artigo 39 da legislação federal, que prevê uma verba especialmente destinada para co-produções em canais a cabo. “É a programação local de TV que faz o mercado crescer”, acredita o sócio da produtora, Leonardo de Barros.

Outro exemplo de que nem tudo está perdido para as produtoras de TV nacionais, é o Documenta Brasil, uma parceria entre ABPI-TV, SBT, Ministério da Cultura e Petrobrás que vai financiar projetos de documentários exclusivos para a televisão aberta com R$ 2,5 milhões. Em um país que não recebe subsídios deste tipo e cuja população, em sua maioria, não tem acesso a canais pagos, a iniciativa é um passo gigantesco. Mas incentivos não significam total liberdade de conteúdo, como adverte Eric Michel, produtor executivo da canadense FRV Entertainment Internacional. “O projeto sempre deve se adequar ao formato do canal, e uma co-produção exige que ambas as partes interfiram em sua essência”. Marcelo Parada, da Band, lembra que muitos documentários jornalísticos independentes são aproveitados por telejornais ingleses, o que não acontece aqui, onde o editorial é muito preservado, motivo que limita as co-produções jornalísticas. “Se queremos qualidade, devemos estar a favor da multiplicidade de opiniões e contra o monopólio”. Se um representante da TV aberta faz afirmações deste tipo no Brasil, é sinal que avanços podem despontar de alguma direção? É o que veremos no próximo MITV.

Tais Laporta

* Publicado no DigestivoCultural.com

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