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16.11.06

Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa

LITERATURA / ARTES PLÁSTICAS*

O mundo particular de Grande Sertão: Veredas (1956), do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), está exposto em uma sala árida de 480 metros quadrados. De portas abertas em São Paulo desde março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa dedica todo seu primeiro andar a esse enigma em forma de livro. E mostra aos visitantes que a saga do jagunço Riobaldo não é impenetrável, dentro de uma proposta que funde linguagem e arte. O espaço caminha tão bem, que foi considerado o primeiro museu do mundo dedicado exclusivamente a um idioma. Agora, homenageia o primeiro escritor a reinventar a língua de um país.
Organizada pela curadora Bia Lessa, a exposição coincide com os 50 anos da morte do autor (leia as Colunas do Especial Guimarães Rosa). Logo na entrada, a atmosfera convida a sentir o clima do sertão: cores cruas e texturas ásperas no chão, nas paredes e nas janelas. Algo que lembra o som de um vasto campo ressoa nos fundos, quase imperceptível. Mas o que prevalece é o carnaval de letras espalhadas por todos os cantos. De perto, elas ganham sentido. “A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade, não vive”. São os esboços do escritor, dispostos com todo cuidado das formas mais criativas.
A íntegra do manuscrito de Grande Sertão, com correções feitas a mão pelo autor, desce do teto em cartazes ampliados. Os tijolos, os vidros e a terra vermelha, todos merecem uma inscrição grafada pelas palavras de Guimarães. No fundo de latões enferrujados, a narrativa dança debaixo d’água. O lixo caótico também abriga trechos do livro. Até os banheiros completam a mostra, com comentários em vídeo de Paulo Mendes da Rocha, Antonio Candido e Décio Pignatari. As 14 últimas páginas do livro são narradas pelo timbre de Maria Bethânia. É assim que a exposição tenta chamar a atenção do visitante para o universo longínquo e desconhecido do sertão. Dentro dele, um mundo ainda mais profundo: o da linguagem como nunca se viu.
Nos rabiscos em caneta, nota-se a obstinação do autor por um vocabulário perfeito, que encaixasse a outros na medida exata, como em uma equação matemática. Apesar da profunda abstração da sua narrativa e da liberdade com que fundia palavras de diferentes classes gramaticais, não faltava lógica nessa ciência vocabular. Isso explica, talvez, porque os leitores de Guimarães parecem ter voltado de uma longa viagem. É como se desbravassem uma selva intocada, que só a obsessão máxima pela linguagem é capaz de permitir. Tanto que Grande Sertão é considerada uma obra mais do que prima.
Ou, então, um oceano de conhecimento. “Falo: português, alemão, francês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, da sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; (...) E acho que estudar o espírito de outras línguas ajuda muito à compreensão do idioma nacional. Principalmente (...) estudando-se por divertimento, gosto e distração.” Palavras do autor, em uma entrevista concedida a uma prima.
Embora muitos duvidem que alguém possa ter tanta memória no “HD”, as anotações originais do escritor confirmam tal capacidade. Em uma delas, ele coloca em ordem alfabética todas palavras que lembra da língua japonesa. E a lista não é pequena. Guimarães brincava de inventar linguagens com vocábulos estrangeiros e era capaz de passar dias “construindo” o melhor título. A narrativa também era desenhada, geometricamente, em função do tempo, do espaço e dos personagens.
Dessa engenharia literária, nasceram, entre outros, os livros Saragana (1946) e Primeiras Estórias (1962). Este último é o mais indicado para iniciantes – consagrado como o terror do vestibular – com narrativas mais curtas (contos), mas não menos densas. As temáticas escolhidas para "A Terceira Margem do Rio", "A Benfazeja" e "O Cavalo que Bebia Cerveja" beiram o absurdo e, por isso, alcançam o patamar do realismo mágico, um gênero que conquistou a simpatia do público a partir dos anos 50. Mesma época, aliás, em que os latinos despontavam com clássicos que marcariam as gerações futuras. A começar pelo argentino Jorge Luis Borges, com o psicodélico Ficções e pelo colombiano Gabriel Garcia Márquez, que levou o Nobel de literatura pelo monumental Cem anos de solidão, em 1982. Entre outros, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Carlos Fuentes também se destacaram. Assim como Guimarães, todos narraram a fronteira entre o fantástico e o real. Mas nosso brasileiro só não alcançou as massas e a popularidade internacional por razões muito particulares.
Primeiro, escrevia com um regionalismo tão peculiar ao sertão, que muitos o consideraram um estrangeiro em seu próprio país. Até hoje, fazer uma tradução de Guimarães para outras línguas é um desafio inacabado. Depois, não que sua escrita seja rebuscada, mas os poucos que encaram livremente o autor, em regra, possuem alguma erudição. Guimarães não é difícil. Simples e sofisticado seja talvez a melhor definição. Por incrível que soe, sua leitura exige mais desprendimento do que inteligência e mais interesse do que preparo. Especialistas diriam que decifrá-la é permitir que palavras novas invadam o inconsciente. Ou ainda, esquecer o certo e o errado.
Assim, num instante, o estranho fica familiar. “Foi de certa feita – o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel”, diz "Famigerado", um dos contos mais sarcásticos do autor. Para os já leitores e os que pretendem ser, a mostra temporária no Museu da Língua Portuguesa é um belo convite ao intelecto. Também pega de surpresa os que nem sonhavam em entrar nesse mundo. Isso porque mistura, num ato inovador, literatura com artes plásticas. Se não incentiva a ler o livro, pelo menos introduz o visitante a um universo desconhecido. E não menos fascinante.

Para ir além
Exposição temporária: Grande Sertão Veredas
Museu da Língua Portuguesa
Estação da Luz – Praça da Luz, s/nº
De terça a domingo, das 10h às 18h
R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia-entrada)
Grátis aos sábados

*Publicado originalmente no DigestivoCultural.com
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