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24.4.06

A humanidade animal

Seria apenas mais um documentário digno de ser apoiado pela National Geographic, uma das maiores organizações educacionais e científicas mundiais. Mas seu grande sucesso, que lhe colocou em primeiro lugar de bilheteria nos Estados Unidos entre audiovisuais franceses, ultrapassando os longas ficcionais O fabuloso Destino de Amelié Poulain e O Quinto Elemento, o Oscar de Melhor Documentário e sua exibição nas bilheterias nacionais após quase cinco meses de sua estréia reforça seu caráter único e abrangente. Filmado em pleno inverno austral do continente Antártico, com um orçamento de US$8 milhões, A Marcha dos Pingüins retrata um fenômeno em movimento, que dura cerca de um ano. Somente estes argumentos já bastam para se conhecer esta obra, de impressionante fotografia, principalmente nas poucas cenas debaixo da água.

Resultado de 120 horas de imagens, foi produzido, em sua maioria, por apenas dois câmeras, que precisaram de equipamentos que resistissem a -40ºC. Desde os 24 anos, o diretor Luc Jacquet já estava envolvido com a temática da Antártica. Ele tinha estudado biologia e o comportamento dos animais e preferia o trabalho de campo à formulação teórica da profissão. Mas, há apenas quatro anos começou a ter a idéia do projeto. Jacquet chama os pingüins imperadores de espécie amaldiçoada, pois pagam o preço de sua majestade durante o inverno, em seu período de procriação. Ele declarou que, para que o projeto fosse bem sucedido, teve que obedecer à natureza, pois muita aproximação poderia interferir na procriação de centenas de ovos. A versão original, em francês, é contada por três vozes: um casal e uma criança. Era de se esperar, mas a narrativa não cai no clichê ou drama, mas conta com fidelidade o que se passa na tela. A música, com uma voz feminina quase infantil e tons eletrônicos, ajuda muito para este feito.

A estória de vida dos pingüins imperadores é, no mínimo, curiosa. Estes animais lutam muito mais para sobreviverem do que, literalmente, viver. Espalhados pelas terras geladas da Antártica, sua população, dividida em diversas colônias, é estimada em 400 mil. Os pingüins machos adultos pesam de 75 a 90 quilos e podem perder 1/3 deste peso apenas durante o inverno. A capacidade de sobreviver da espécie é fantástica: os machos chegam a ficar 115 dias sem comer, aguardando que a fêmea traga comida para seu filho, que é chocado por ele, para, somente assim, poderem rumar ao encontro de comida no mar. Cada casal incuba apenas um ovo, que, por sua fragilidade, têm que ser protegidos do frio. Em alguns anos, 80% destes ovos morrem e, após nascerem, também têm que ser protegidos de possíveis predadores, que atacam pelo ar.

São igualmente interessantes os meios encontrados por uma espécie reconhecidamente aquática para sobreviver no gelo (o pingüim imperador é um ótimo nadador e seu recorde consiste em percorrer 1.700 pés em vinte minutos). Com seu andar desajeitado e ineficiente, o filme nos revela suas alternativas, como deslizar de barriga no gelo, que pode fazer com que atinja quatro ou cinco milhas por hora. Além disso, o pingüim imperador suporta diversas temperaturas apenas com a regulagem de seu próprio corpo, até mesmo tempestades de neve (que chegam a ter ventos de 162 quilômetros por hora). Em meio a idas e vindas, em uma grande colônia, seria perfeitamente possível que o casal ou filho se perdessem um dos outros. Mas um identificador vocal permite que, após segundos de canção, se identifiquem, mesmo em meio a diversas outras canções.

Mas é o aspecto social, veemente nesta espécie animal, que chama atenção e pode se configurar em uma das razões do sucesso do documentário, gênero muitas vezes relegado pela bilheteria. São características quase humanas que o espectador vê na tela e o faz refletir, pois, afinal, sem elas, a sobrevivência da espécie estaria ameaçada. Fidelidade (os casais formados se mantêm fiéis durante todo o inverno), tolerância (agrupados, bem juntos um dos outros, se protegem do frio e de outros predadores) e divisão de tarefas são algumas delas. Há também características humanas menos virtuosas, em cenas marcantes de pingüins fêmeas disputando a atenção dos machos e pingüins que, deprimidos por perderem seus filhos, seqüestram os de seus pares. Há também traços mais subjetivos, como o carinho e o zelo que estes animais têm, ou pelo seu par ou pelo filho. E estes conseguem ser registrados com a devida sensibilidade e detalhamento.

A Marcha dos Pingüins é um documentário corajoso, tanto em termos técnicos e comerciais. E nos leva, indiretamente, a uma reflexão ecológica, urgente em tempos modernos. Todo este espetáculo da natureza que está diante de nossos olhos pode desaparecer aos poucos por causa do aquecimento global. O fenômeno, ao derreter o oceano congelado, faz com que a população de krills, espécie de peixe da qual o pingüim se alimenta, diminua, pois se alimentam de algas que crescem em baixo deste oceano congelado. Em 2001 já foram relatados casos de centenas de afogamentos de filhotes de pingüins imperadores por causa do derretimento precoce do oceano. Espera-se que não chegue o dia em que o esforço do pingüim imperador será em vão.

Marília Almeida

5 Comments:

Anonymous Hernandes Aguiar said...

Não gosto de parecer um fã incondicional, mas até aqui, os seus textos têm me tocado profundamente. Principalmente pela sensibilidade que revelam, mas também pela fluência, que eu gostaria de ter. Mais uma vez, em nome da verdade, parabéns, Marília.

8:24 PM  
Blogger Mar said...

Li teu documentário, me imaginando um pinguim. Sendo um, a vida por si só é maravilhosa. Pensando como um... vivo o momento presente porque o seguinte.. não sei! Por viver o agora, sou melhor que os humanos, porque jamais vou pensar em guardar coisas para usar no futuro. Os humanos deveriam aprender a magia da vida com os animais. Eles são a perfeição. Nós humanos somos a destruição, responsáveis pelo futuro ou não, da sobrevivência de várias espécies no planeta. Perfeita tua reportagem... uma viagem encantadora num início de manha. Abraços e bom dia!

5:46 AM  
Anonymous Israel Barros said...

Eu gostei muito desse filme bonito e poetico. A musica da Amelie Simons e otima tambem. So continua a minha cruzada contra os tradutores de nome de filme. A Marcha dos Pinguins ficou um nome ridiculo!

4:35 AM  
Blogger Marília Almeida said...

Hernandes, Mar, muito obrigada pelos elogios. Achei interessante seu ponto de vista, Mar. É isto mesmo que faz um produto cultural tão rico: ver o mundo com os olhos do outro.

E Israel, concordo com você. Só não acredito que o título seja ridículo. Ele nem é tão diferente do original (O pinguim Imperador). Além disso, ele reproduz fielmente o que é retratado no filme. E cria uma imagem muito bonita em nosso imaginário. Uma marcha dedicada ao amor soa bastante poético. Faz um contraponto às marchas tão violentas e sem sentido das guerras e movimentos nacionais.

12:20 PM  
Blogger Tais Laporta said...

Concordo com a Marília, achei o título apropriado e metafórico, mais inteligente que o original.

9:46 PM  

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