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31.7.06

FIT - Festival Internacional de Teatro II

TEATRO*

Ontem pude, enfim, conferir três das cinco produções internacionais que participaram da edição 2006 do FIT. As outras duas foram Materia Material, do grupo peruano Teatro Lot, que buscou mostrar em sua apresentação novas formas não-convencionais de utilização de objetos e Una Madre Coraje y sus hijos em el purgatório, dos grupos Teatro Del Silencio e Karlik Danza Teatro, produção chilena com co-produção espanhola. Este é o segundo ato de uma produção inspirada livremente na obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri. A primeira foi nomeada Inferno. Criado em 1989, o Teatro Del Silencio é caracterizado por fundir dança, teatro, músicas e técnicas circenses.

A grande decepção foi quanto ao cancelamento de uma produção russa do Festival Internacional de Teatro Tchekhov em associação com o tradicional grupo inglês Cheek by Jowl: Twelfth Night, adaptação de Noite de Reis, de William Shakespeare. Mesmo adiando em um dia sua estréia no festival, a organização do FIT não conseguiu com que os equipamentos do grupo fossem liberados no Aeroporto Viracopos, em Campinas, onde estão retidos há cerca de um mês por causa da greve dos fiscais da receita federal. Junto com outra produção do grupo, Boris Godunov, ela iria abrir a Estação de Teatro Russo – Brasil 2006, que acontece em São Paulo do dia 25 a 08 de outubro, que, provavelmente, também será prejudicada.

Mas as três peças mais concorridas da programação, muito diferentes entre si, não decepcionaram. Cuentos Pequeños, do peruano Teatro Hugo & Inês, é encantadora e não poderia ser diferente. É um espetáculo fácil e sem qualquer recurso de cenário a não ser uma iluminação mínima. O recurso técnico mais eficiente consiste na própria dupla de bons atores, Hugo Suarez e Ines Pasic, que também dirigem o espetáculo. Hugo, mais especificamente, é tão expressivo que concorre, em pé de quase igualdade, a atenção com o boneco criado por si, muito mais chamativo visualmente.

O espetáculo é uma tragicomédia que arranca gordas risadas da platéia a cada minuto. Ele consiste de pequenas histórias protagonizadas por diferentes personagens: bonecos compostos por diferentes partes do corpo da dupla (até mesmo, surpreendentemente, barriga e boca) e alguns pequenos acessórios, como narizes e olhos. O apelo visual é incontestável: a aparência meiga conquista o público no primeiro olhar. Para finalizar, a técnica mímica dos dois atores beira a perfeição. Separados ou juntos, não há erro nos movimentos milimetrados dos personagens, que assumem características humanas, seja no leve andar, na liberdade e diversidade de seus movimentos e gestos caricaturais que conseguem captar tipos de personalidade. Pudera: desde 1986, época de criação do grupo, eles se interessam pela expressão de diferentes partes do corpo humano.

Les feuilles qui resistént au vent vai na contramão, apesar de ter também forte apelo visual. Ela é uma produção do bailarino e coreógrafo Koffi Kôkô, que também atua na peça e é considerado um dos mais inovadores da dança contemporânea africana. O espetáculo de dança é denso e trata basicamente dos ensinamentos da vida através da expressão do corpo. A tradução de seu título, As folhas que resistem ao vento, explica bem o que vemos: o ato de subir na vida, a tristeza da solidão do topo, o trabalho que escraviza, o esquecimento de si mesmo e do outro e a agonia são belamente expressas apenas pelo ato da dança, que tem seu ápice na vertiginosa e surpreendente dança dos bailarinos em cima de finos e altos bambus. Até mesmo a pintura de tinta branca que cobre o corpo dos bailarinos serve de recursos visuais à medida que o suor de sua dança a transforma de novo na cor negra.

O local da apresentação, o Swift Seringueira, coube perfeitamente na peça, eminentemente naturalista. Composto por um quadrado de areia e uma alta arquibancada, além de fartos recursos de iluminação de diversas cores e duas seringueiras enormes, faziam com que os movimentos livres e tribais dos bailarinos tivessem suas sombras projetadas nas duas árvores, o que provocava a sensação de retorno a um mundo esquecido pela civilização ocidental e tão próximo às nossas raízes. Os movimentos frenéticos em um material movediço como a areia trazem efeitos que consolidam o espetáculo. Os três músicos são um espetáculo à parte ao trazerem um som forte, composto basicamente por batucadas e efeitos de som de teclado, que dá ao som afro um tom de experimentação e, ao espetáculo, o efeito de um transe e torpor infinito.

Por fim, a produção francesa Aberration du Documentaliste, do Théâtre de la Massue, é muito prejudicada pela barreira da língua. Mas este problema é em parte contornado pela atuação expressiva de Jack Fornier como o bibliotecário solitário que, por ler toda a criação do mundo, começa a ter visões fragmentadas do que a consistiu. Estas visões são mostradas na forma de miniaturas de bonecos, manipulados por dois homens invisíveis no cenário. Neste, aliás, criado em um antigo galpão, ouvimos efeitos sonoros de pingos de água e é circundado e isolado por grandes painéis negros e altos e ilustração de uma biblioteca.
Aguardem um balanço do evento no próximo post.

Marília Almeida

*publicado no Digestivo Cultural

FIT - Festival Internacional de Teatro I

TEATRO*

Não pude me livrar da sensação de espectadora retardatária no penúltimo dia da 6° edição do Festival Internacional de Teatro, o FIT, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Preço pago para que pudesse contemplar a maioria das atrações internacionais em apenas um dia. Mas ainda consegui pegar o clima do 2° e último final de semana atípico em uma cidade de 200 mil habitantes.

O evento é fruto de uma parceria de entidades públicas, o que permitiu o baixo preço dos ingressos para as peças (inteira R$10 e estudante R$5). Realizado pela Prefeitura Municipal da cidade, o Serviço Social do Comércio e a Petrobrás, o festival teve um orçamento de R$1,9 milhão, do qual R$600 mil foram utilizados para o cachê das companhias participantes. Há também o patrocínio da Caixa Econômica Federal e Correios, e parceria com a Funarte, Secretaria de Estado da Cultura e o Governo do Estado de São Paulo, além do benefício da Lei de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.

O festival está em seu 9° dia e, apesar do nome, exibe apenas cinco produções internacionais e 44 nacionais, entre elas sete infantis e nove de rua. Provenientes de vários estados do país, elas compõem um cenário diversificado, apesar da hegemonia do eixo RJ-SP. Entre os destaques estão Larvárias, de Porto Alegre-RS, Dilacerado, do Rio de Janeiro-RJ, O que seria de nós sem as coisas que não existem, de Campinas-SP, A Parte Doente, de Blumenau-SC, Caetana, de Recife-PE, Dinossauros, de Brasília-DF, Êh Boi, de Belo Horizonte-MG e Fábulas, de Natal-RN. Três produções da cidade também participam do festival: Abajur Lilás, Sr. Malte e Beatolados.

O festival envolve toda a cidade em 18 espaços, entre teatros, palcos especiais, ruas e até um casarão. Nele, três peças chegam a ser exibidas concomitantemente. É natural, pois, que a primeira impressão seja a de um festival popular, ligada ao teatro de rua. Como a maioria das peças são exibidas somente à noite, pela manhã busquei este teatro de fácil acesso aos moradores locais e a todos os interessados. Encontrei duas: Circo Minimal – A soprano Galinha Galinova, do grupo Cia. Gente Falante – Teatro de Bonecos; e o projeto Uroborus.

Em uma feira de bairro encontrei o pequeno circo, mínimo mesmo, do grupo de Porto Alegre que completa doze anos de atividades em teatro de animação. Descobri que seu nome provém da junção de minimalismo e fábulas de animais. É justamente o que encontramos. O quadro Galinha Galinova é apenas um dos dez da série Circo Minimal. No FIT foram apresentados apenas dois deles, um em apresentação dupla.

Pontualmente, uma grande fila foi se formando, entre curiosos e acompanhantes das muitas crianças presentes. A sensação de que era a primeira vez de muitas delas frente à arte teatral não deixou de encantar. Com apenas quatro minutos de duração e capacidade para sete pessoas, a encenação é singela, com trilha sonora e iluminação bem-feitas em um cenário que, por ser itinerante, é, inevitavelmente, precário. Despertou em muitos presentes alegria e surpresa.

Da feira, parti para a rodoviária da cidade. Não quis voltar para a casa. É lá mesmo que é encenado o Projeto Uroborus. Ele consiste em 179 horas ininterruptas de encenação de um texto de 78 dramaturgos, entre eles Maquiavel, Gil Vicente e Sófocles, desde o teatro grego ao contemporâneo, nomeada Rapsodomancia para a eterna ressurreição do teatro. Mas o mais interessante é que os atores em cena são pessoas comuns que aceitam encená-lo por uma hora, sem mais nem menos e com direito a buzina no final. Até o dia 18, 200 pessoas já haviam se inscrito para o projeto pelo site do FIT.

Presenciei a encenação de uma dupla, no mínimo, curiosa. Um músico de 56 anos que entende a música e teatro como artes interligadas, já que ambas exigem poder de expressão, e um jovem de 14 anos apaixonado pela arte cênica, ambos moradores de Rio Preto. A um foi delegado o papel de protagonista e, ao outro, a tarefa de sempre argumentar suas afirmações acerca do mundo. Política, poesia, preconceitos sociais e muita reflexão acerca da própria atividade teatral permearam os diálogos, repletos de improvisações até mesmo sobre a Parada Gay paulistana.

Houve também muito embate de estilo entre as duas personalidades tão distintas dos atores em cena. Muitas vezes ambos corrigiam a si próprios e indicavam sutilmente ao outro para seguirem o script, o que era muitas vezes rechaçado. No balanço final, momentos e insights reveladores e realmente criativos de suas duas visões particulares do mundo. Pequenas risadas e olhares atentos da platéia de cerca de vinte pessoas se transformaram em aplausos, apesar do barulho da rua e rodoviária, que tornava impossível por vezes a audição dos diálogos e até mesmo provocavam irritação.

Por fim, a emoção expressa nos olhos dos dois participantes e a vontade de estar cada vez mais próximos da arte. Por outro, a cena de um mendigo lustrador de sapatos, que parou para contemplar a peça por segundos. Ele acendeu um cigarro com um sorriso que não podia ser codificado, tamanha a distância dele do resto dos espectadores. Mas, logo depois, a vida que se segue na solicitação a possíveis clientes se estes queriam lustrar seus sapatos ou na tomada do próximo trem pelo passageiro rodoviário. Mas são estas misturas de sensações que fazem, afinal, um espetáculo de rua. E são eficientes, sempre.
Marília Almeida

*publicada no Digestivo Cultural

25.7.06

Literatura universal do Sul

LITERATURA*

Um escritor de ideais regionalistas, mas com temática universal, não pode ficar confinado em sua terra natal por muito tempo. Charles Kiefer, no entanto, resistiu quase três décadas nos pampas gaúchos – 30 livros e 3 Prêmios Jabutis – até sucumbir à Editora Record, que vai relançar toda sua produção literária em escala nacional. É a primeira oportunidade para o leitor do centro e norte do Brasil se aproximar com mais intimidade do autor, que com a intenção de preservar os detalhes do Sul, produziu uma coleção onipresente sobre o drama humano.

Ao lado de Quem faz Gemer a Terra (romance de 1991 sobre as questões agrárias do MST), a Record acaba de colocar no mercado Logo Tu Repousarás Também, uma coletânea de 14 contos independentes, que carregam narrativas curtas, porém densas, tecidas com linguagem simples e sugestiva. O mais difícil na construção de um drama – chocar sem ser fatalista ou comover sem forçar a barra –, Kiefer cria com naturalidade em enredos demasiadamente humanos. Em outras palavras, não é difícil encontrar a natureza interior que nos assola travestida nos seus personagens. O clima do livro confere uma face aterrorizante à banalidade, levada ao extremo nas histórias pelo neo-realismo literário do autor.

Um dos trechos mais intensos da coletânea se encontra em O Boneco de Neve. O conto deixa no ar a incômoda sensação de que os cenários angelicais também não estão livres das tragédias: “No meio da tarde, sob um céu carregado de nuvens baixas e cinzentas, ele nos convenceu a cobri-lo, a transformá-lo num autêntico boneco de neve. Excitados, eu, Maneco, Juca e João Carlos, todos meninos, todos inocentes, e incendiados todos pela branca irresponsabilidade da infância, cobrimos primeiro suas pernas, e depois o seu tronco. Não recordo em que momento percebemos que ele não respirava mais.”

Kiefer dá prioridade ao universo psicológico dos personagens, exposto nas entrelinhas de diálogos e pensamentos, em detrimento das frias descrições, deixadas em segundo plano. Em diferentes cenários e sob várias vozes narrativas, os contos carregam ora o peso da fatalidade cotidiana, ora da tranqüilidade enfadonha. É assim em Medo, quando um taxista, ex-torturador da Polícia Militar, percebe que seu passageiro é também seu ex-torturado. E o conflito desse reencontro inesperado se exterioriza pelos reflexos do espelho. “Pelo retrovisor, vi seus olhos verdes, tensos, quase suplicantes, como que em busca de um registro, um detalhe que conectasse a voz que o angustiara a um rosto, a um episódio”.

Na economia descritiva, o leitor identifica com rapidez o mundo antagônico dos personagens, como no conto Belino, em que um policial rodoviário chora em público, com o revólver na mão, pela morte de seu passarinho congelado de frio, graças ao esquecimento de um subordinado. Quando a indiferença dos colegas se choca com o intenso sofrimento do guarda, Kiefer confronta universos psicológicos bilaterais. “Que horror, pensei, o velho deu alpiste ao canário por mais de uma década, e deu água. E limpou a gaiola, todos os dias (...) Meu Deus, a vida num posto da Polícia Rodoviária Federal é a coisa mais monótona do mundo”.

Em outros momentos, elementos fantásticos se misturam ao realismo, como nos contos Lídia e o Rabino e Rosa Rosarum. Este último é uma tentativa de reconstruir as origens da "Biblioteca de Babel", conto universal do argentino Jorge Luis Borges – um verdadeiro quebra-cabeça literário. Aliás, Kiefer não esconde a admiração pelos autores que mais influenciam sua obra, entre eles Franz Kafka, Anton Tchekov, além do próprio Borges. Inclusive um dos contos do livro, "Insônia", traz como personagem ninguém menos que Tchekov, na pele de Antocha Tchekonté.

Ainda que Kiefer faça questão de preservar seu patrimônio regional na literatura, como a ideologia agrária dos gaúchos e o uso do “tu” em todos os textos, já estava na hora de apresentar, com projeção nacional, o rigor narrativo desse descendente de alemães, nascido em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, Três de Maio. Embora desconhecido na maior parte do território brasileiro, não se pode dizer que a visibilidade com a Record vai colocá-lo no time das revelações, hoje ocupado por uma leva de novos autores. Kiefer pertence a uma categoria bem mais segmentada. Mais precisamente, a dos veteranos regionais em expansão.

Tais Laporta

* Publicado no Digestivo Cultural

18.7.06

Rumos do Cinema Político Brasileiro

CINEMA*
As diversas formas de representação de crimes políticos pelo cinema nacional já foram bastante exploradas, principalmente no que diz respeito ao período mais sombrio da nossa história: a ditadura. A ficção Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat, e o documentário Vlado – 30 Anos Depois, de João Batista de Andrade, são dois exemplos e ajudaram a compor a mostra Encontro com o Cinema Brasileiro – Crimes Políticos no Cinema, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo de 22 a 25 de junho.
A Mostra também exibiu pérolas nacionais como Terra em Transe, de Glauber Rocha, além de filmes recentes que fazem alusão ao estado de corrupção que se formou em Brasília, como Brasília 18%, de Nelson Pereira dos Santos, e Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach. Também promoveu, inclusive, uma estréia: Veias e Vinhos, de João Batista de Andrade, prevista para entrar nos circuitos ainda este ano, seguida de um debate com o autor. Atual secretário de cultura do Estado, João Batista pode ser considerado um dos cineastas brasileiros mais engajados politicamente, ao lado de Nelson Pereira dos Santos. Mas levou este engajamento até as últimas conseqüências ao se fundir a ele e ter se tornado um homem público, que vê o atual governo como "democrático, mas com um problema grave de segurança" e que tem "pela primeira vez uma política cultural no Estado, que já distribuiu mais de 200 editais de projetos".

Escritor, roteirista e cineasta, João Batista reúne uma vasta produção de documentários e ficção, todos com temas ligados à ditadura e política. Um deles, Doramundo, sobre o Estado Novo, foi produzido em 78 e premiado em Gramado. Veias e Vinhos faz parte de uma produção própria durante os anos de chumbo, muitas vezes inacabada e adiada. Talvez uma das mais marcantes seja O homem que virou suco, de 81, que apresenta a anistia e a luta por uma identidade nacional. Na esteira desta obra, há A próxima vítima (82), sobre a relativa abertura política, e Céu Aberto (86), que retrata a morte de Tancredo Neves. Na época, João Batista dependia de recursos da União Nacional dos Estudantes (UNE) para viabilizar suas produções até que a entidade foi invadida pelos militares.

Depois ter falado do tenentismo em 87, com Veias e Vinhos, o cineasta volta ao período da ditadura, época de sua formação, rememorado a morte do jornalista Vladimir Herzog, com quem produziu o programa da TV Cultura A Hora da Notícia, em 1972, nos porões do DOI-CODI em 2005. Adaptação do romance de mesmo nome, de autoria do escritor goiano Miguel Jorge, ele é baseado em fatos reais ocorridos em Goiânia, em 1950. Na época, desconhecidos invadiram uma casa e mataram um casal e seus cinco filhos, deixando viva apenas uma menina de dois anos. Manipulado por políticos, o crime continua sem solução e deixou moradores em pânico ao tentar produzir culpados às custas de torturas policiais.

João Batista enfatiza que o filme foi produzido com poucos recursos, dependente da criatividade do figurino e cenografia. Efetivamente, o longa se passa praticamente em apenas um ambiente: o bar do casal de protagonistas Simone Spoladore e Leonardo Vieira. Mas consegue ser singelo e contornar esta dificuldade ao criar uma narrativa linear, mas tensa, com uma boa fotografia. Juscelino Kubitschek está no poder, que logo será tomado por Jânio Quadros. É uma prévia do que seria o golpe de Estado liderado pelos militares e toda a violência policial que traria consigo.

O nível de inconsciência da população brasileira em Veias e Vinhos é veemente e é ele que João Batista considera o ponto de ligação entre todos os seus filmes da época. O protagonista, representado por Leonardo Vieira, é um típico cidadão brasileiro que sonha com o Brasil moderno e desenvolvido prometido por Juscelino. Ele procura uma casa na beira do lago, na Brasília em construção, e ajuda a todos os subversivos que encontra, mesmo que sua visão política seja reduzida, o que o torna um pouco caricatural.

João Batista explora a metáfora política no cotidiano da família retratada através de um simples e inocente gesto do protagonista. Admirador de políticos, ele ostenta em seu bar o quadro de Juscelino, que teima sempre em pender para o lado e ganha um companheiro com o fim de seu mandato: Jango, desconsiderando-se todas as contradições existentes entre os dois personagens. A vida do casal é abalada por um delegado lacerdista, freqüentador do bar, que remói a derrota para JK e tem os brios feridos pelo quadro exposto. Caçador de subversivos, ele é provocador e quer mostrar serviço ao "alto comando", revelando uma hierarquia e interferência entre poderes que envenenou os anos de chumbo.

O diretor acerta ao criar uma situação dúbia e surpreendente, onde nada é o que aparenta e os fatos podem ser utilizados mais contra do que a favor das pessoas que o envolvem. Desconfia-se de tudo e todos e testamos nossos pré-conceitos da época a cada instante. João Batista não coloca a culpa apenas na polícia, braço de um duro regime, mas retrata a situação econômica e alienação de uma sociedade corrompida e como ambas se fundiam com o novo regime, criando uma situação explosiva. O final já é conhecido por todos.

*publicada no Digestivo Cultural

Marília Almeida

11.7.06

TV Made in Brazil

TELEVISÃO*

A TV aberta no Brasil é uma das mais fechadas do mundo para as produtoras independentes. Ao contrário dos países Europeus, aqui, o governo não fornece subsídios para a produção de ficção ou documentários destinados à televisão (as leis de incentivo ao audiovisual beneficiam tão somente o cinema) e as grandes emissoras não pretendem investir um tostão em negócios desse tipo. No entanto, se por um lado o cenário nacional é desolador, por outro, países estrangeiros estão de braços abertos para fazer parcerias e co-produções que beneficiem ambas as partes. E, ao que tudo indica, esse elo está começando a dar certo: foi a impressão deixada durante o 1º MITV – Mercado Internacional de Televisão, evento que integra o calendário internacional de conteúdos para televisão, realizado nos dias 05 e 06 de junho, em São Paulo.

O exemplo mais nítido de como nossas produtoras aprendem a driblar a falta de incentivos nacionais é a exportação de seus projetos. Para tanto, a ABPI-TV – Associação Brasileira de Produtores Independentes para Televisão, alavancou uma idéia inusitada: criou o Brazilian TV Producers, marca internacional que divulga os projetos brasileiros para canais do mundo todo, como esclarece o presidente da entidade, Fernando Dias. “Queremos levantar fundos para co-produções, aproveitando o interesse de países como França, Alemanha, Espanha e Itália, que recebem subsídios generosos para produções desta natureza”. A missão, desde então, tem indicado números positivos. O país fechou acordo com 13 países e levantou quantias superiores a U$ 24,5 milhões para o setor.

Contudo, se é perfeitamente satisfatório que algumas produtoras brasileiras estão desenvolvendo ficção e documentários de peso para gigantes como National Geografic e Discovery Channel, é também um desalento notar que os canais nacionais não investem um centavo em conteúdos independentes, repetem as mesmas fórmulas e copiam padrões estrangeiros. “A disparidade entre o que é oferecido pelas produtoras e as expectativas dos canais de televisão é colossal. Formatos com viabilidade comercial ainda são os programas diários de auditório, que atraem receita de anunciantes, e as telenovelas, que sempre são um bom negócio”, aponta, com sinceridade, Marcelo Parada, vice-presidente da TV Bandeirantes.

Doa a quem doer, o panorama atual do mercado de televisão é o seguinte: enquanto os canais internacionais estão de olho em projetos com qualidade de conteúdo (Michella Gioretti, diretora de produção da Discovery aconselhou os brasileiros a trazerem “coisas novas, fatos que estão mudando a história”), a TV brasileira continua se gabando pelo modelo exportador de suas novelas e reality shows de audiência exorbitante, ao passo que rejeita a chamada “programação especial para o cabo”. Ainda assim, numa terra onde a qualidade não atrai público nem receita, as produtoras independentes tentam reverter o quadro transformando água em vinho, isto é, adaptar a mentalidade de equipes inteiras que estão voltadas, por razões comerciais, ao mercado publicitário e, em menor escala, ao cinema.

Michella Gioretti, da Discorevy Channel: prioridade para o conteúdo

Carla Affonso, diretora geral da Endemol Globo, conta que quando a empresa fechou uma parceria com um canal Francês para filmar nas matas do Brasil, as equipes locais tiveram dificuldades. “A mão-de-obra para formatos inusitados deixa a desejar no Brasil. Aqui é mais cinema”, admite. Apesar de as empresas de TV nacionais só importarem modelos do exterior, como reconhece Carla, elas também precisam se reinventar. Para tanto, estão aprendendo a lidar com multi-plataformas – a introdução de novas mídias na programação. “Os portais de voz e outros aplicativos de interação com o espectador agregam audiência e dinheiro”, constata a diretora, citando o exemplo bem sucedido do Big Brother Brasil no mercado.

Produtos deste tipo compõem a fórmula comercial mais lucrativa para as TVs abertas, um panorama bem diferente dos canais a cabo, que ainda priorizam o conteúdo. Mas o Brasil começa a se aventurar timidamente pelas bandas das multinacionais. Uma experiência recente mostrou como é possível aproveitar brechas na legislação brasileira para efetivar parcerias: em 2005, a Conspiração Filmes produziu para a HBO a primeira série de ficção brasileira em um canal a cabo, Mandrake, protagonizada por Marcos Palmeira. O projeto só aconteceu graças ao artigo 39 da legislação federal, que prevê uma verba especialmente destinada para co-produções em canais a cabo. “É a programação local de TV que faz o mercado crescer”, acredita o sócio da produtora, Leonardo de Barros.

Outro exemplo de que nem tudo está perdido para as produtoras de TV nacionais, é o Documenta Brasil, uma parceria entre ABPI-TV, SBT, Ministério da Cultura e Petrobrás que vai financiar projetos de documentários exclusivos para a televisão aberta com R$ 2,5 milhões. Em um país que não recebe subsídios deste tipo e cuja população, em sua maioria, não tem acesso a canais pagos, a iniciativa é um passo gigantesco. Mas incentivos não significam total liberdade de conteúdo, como adverte Eric Michel, produtor executivo da canadense FRV Entertainment Internacional. “O projeto sempre deve se adequar ao formato do canal, e uma co-produção exige que ambas as partes interfiram em sua essência”. Marcelo Parada, da Band, lembra que muitos documentários jornalísticos independentes são aproveitados por telejornais ingleses, o que não acontece aqui, onde o editorial é muito preservado, motivo que limita as co-produções jornalísticas. “Se queremos qualidade, devemos estar a favor da multiplicidade de opiniões e contra o monopólio”. Se um representante da TV aberta faz afirmações deste tipo no Brasil, é sinal que avanços podem despontar de alguma direção? É o que veremos no próximo MITV.

Tais Laporta

* Publicado no DigestivoCultural.com

4.7.06

Desfeito como pó

CINEMA


Adaptações literárias para o cinema nunca são bem recebidas pelos respectivos leitores, ferrenhos defensores dos preciosos originais do autor em questão. O debate é quase sempre envolto de um purismo sem sentido. Ele já andou acontecendo na adaptação de best-sellers de Dan Brown, Código da Vinci. O cerne do problema é que a linguagem cinematográfica exige um resumo e uma certa compressão de devaneios literários que podem arrepiar os fãs mais calorosos.

Isso também acontece com Pergunte ao Pó, adaptação do romance homônimo publicado em 39 de John Fante. Visto com desdém pela crítica nacional, o acalentado sonho de 30 anos de Peter Towne parece ser facilmente desfeito. Ganhador do Oscar por Chinatown, que também retrata o período da depressão e a cidade de Los Angeles, Towne conheceu Fante nas filmagens e logo quis levar seu romance a cabo nos cinemas. Após um caminho tortuoso, de troca de autores e burocracias quanto aos direitos autorais do romance, Towne dirige em parceria com Tom Cruise, que mais uma vez se envereda pelos caminhos da produção. Colin Farrel e Salma Hayek foram enfim escolhidos para o papel do casal de protagonistas, Arturo Bandini e Camilla Lopez.

No auge da depressão da década de 30, o escritor descendente de italianos Bandini, alter-ego do autor, vive às voltas com algo que o atormenta: escrever uma grande obra e alcançar o reconhecimento. Ganhando trocados em troca de pequenos contos em uma Los Angeles sóbria, segue sonhando até conhecer a imigrante mexicana Camilla, garçonete do Café Columbia. O que começa como uma relação de troca de insultos culmina inevitavelmente em um romance de dois opostos à primeira vista, mas que teimam em se manter juntos, como dois marginais que só têm um ao outro.

O filme soa muito bem em sua maior parte, pois consegue manter o clima entediante onde Bandini está inserido e mergulha cada vez mais enquanto luta por idéias grandiosas que nunca aparecem. Sua amante, Vera, interpretada por Idina Menzel, é uma das boas surpresas da primeira parte do longa. Uma relação tocante e tensa que se desenvolve entre os protagonistas se delineia na tela em belas cenas, como a ida do casal à praia, à noite. Os diálogos e atuações não ficam devendo muito ao original. Apenas a distância suficiente em se tratando de uma adaptação literária que, inevitavelmente irá ser analisada de maneira complexa e muito subjetiva.


Ao se caracterizar como um romance de um autor que fez parte de um movimento que quebrou padrões estéticos e revolucionou a escrita ao tocar em temas vulgares como o ofício pouco valorizado do escritor, a depredação econômica nacional e o clima de desesperança que o envolveu, Towne não poderia simplificá-lo na questão racial do grande fluxo de imigrantes da época. A simples idéia de dar atualidade a uma época tão singular na história dos Estados Unidos soa forçada e se caracteriza como uma tentativa de soar moralmente defensável ao jogar a culpa dos problemas nos próprios personagens, em uma época de grandes greves de imigrantes no país, vide 1º de maio.

Não que os personagens não vivenciem o drama e ele não esteja no principal foco do romance de Fante, mas é que a atenção ao tema se torna tão veemente que acaba por quebrar o encanto de um filme simples e singelo. O ápice deste deslize pode ser verificado no final do longa de Towne, que acaba por distorcer e mudar o romance de Fante, assim como a atuação dos personagens, que também se perde. A crise existencial do escritor e o pano de fundo do romance, marcante nas reflexões de Bandini na cena do terremoto, muito pouco explorada, são deixadas para trás.

Talvez a resposta para esta guinada resida na dificuldade encontrada por Towne para conseguir financiamento para o filme e até mesmo o dedo de Tom Cruise na produção. Diretores são obrigados muitas vezes a tornar o filme mais apetecível ao público do cinema. Mas Towne não consegue nem um nem outro: é um filme B que tenta com desespero chegar ao status de filme A. Uma pena. Poderia ter continuado onde está e teria feito uma bela adaptação de um dos romances mais marcantes da desilusão que se constituiu a Depressão Estadunidense, o que o firmaria como um contemplador do tema.

Marília Almeida

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