Image Hosted by ImageShack.us

24.6.06

O livro que deu a "Volta ao Mundo"

LITERATURA

Inúmeros clássicos da ficção se tornam clássicos não apenas pela originalidade frente a seu tempo, mas, sobretudo, pela ousadia de empreender uma trama baseada em hipóteses que futuramente podem soar ridículas. É o caso da obra-prima de Júlio Verne, escrita em 1873, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, uma das primeiras que inspirariam milhares de livros e filmes de entretenimento consumidos pela posteridade.

Mas qual o atrativo de tal aventura terrestre, se um avião pode circundar o globo em menos de 72 horas? A verdade é que, 200 anos depois do lançamento da ficção (que hoje caberia em um reality show), não deixa de ser incrível a saga de Filleas Flog, um inglês que apostou altas quantias em dinheiro para vencer o desafio de percorrer o mundo em dois meses e meio – um abuso para os cálculos da época.

Júlio Verne e seu universo fantástico


Acompanhado de seu dócil criado, o francês Jean Passepartout, o apostador atravessa oceanos a navios a vapor, estradas a trem, selvas a pé e até em um elefante. Tudo cronometricamente planejado para que, em 80 dias, Filleas Flog esteja novamente em seu ponto de partida, Londres, ao encontro de seus desafiantes. Mas como toda boa aventura, o inglês encontra uma série de empecilhos que provocam o atraso da viagem. E como se a história tivesse bem menos que 200 anos, os ingredientes de qualquer filme de ação convencional podem ser encontrados na obra de Júlio Verne: a mocinha, na pele de uma jovem indiana, é salva pelo herói – o personagem principal – que a livra de ser morta, em plena viagem, por tribos religiosas nas selvas orientais.

Para encontrar a qualidade ímpar do livro, é preciso se despojar de qualquer esperança hiper-realista, e, naturalmente, considerar o contexto social em que foi escrita a ficção: é claro que Verne não dispensa pitadas de romantismo logo nos momentos quando tudo parece perdido. Em outras palavras, nada que a sorte extrema ou o dinheiro inesgotável não resolvam, seja uma ajuda inesperada e improvável que cai do céu, seja um suborno que convence qualquer personagem a adiantar a viagem do inglês – neste ponto, o ser humano prova que é universal. Quem não gosta de histórias que abusam da sorte, no entanto, pode se decepcionar.

Deixando de lado a aventura quase fantástica em volta do planeta, a graça do livro encontra-se exatamente na sua curiosa arquitetura, que não passa de uma alegre brincadeira matemática, do início ao fim. Levando-se em conta as limitações da época, a baixa velocidade dos trens e navios do século XIX tornam a aventura mais eletrizante – tamanha lentidão que os tempos modernos destruiriam sem esforço: qualquer tentativa de vencer o espaço antes do tempo em nosso século é prontamente atendida pela velocidade do avião, esse estraga-prazer. Não podemos nos dar ao luxo de percorrer o globo em 80 dias e virarmos heróis. Mas o personagem de Júlio Verne pode. Aí reside o espírito de um clássico.

Tais Laporta

13.6.06

Dez anos e várias solidões

TEATRO*
Na ocasião dos dez anos da morte do escritor e jornalista gaúcho Caio Fernando Abreu, além da reedição de alguns de seus livros, a peça B, Encontros como Caio Fernando Abreu, que estreou no Centro Cultural Fiesp no dia 2, é mais uma das ações que marcam o ano e reacendem sua memória. Encenada pelo Núcleo Experimental de Artes Cênicas do Teatro Popular do Sesi-SP, sua temporada segue até o dia 27 de agosto.
Seu diretor, Francisco Medeiros, premiado nome da cena teatral contemporânea, frisa a importância da manutenção do Núcleo Experimental em meio a um mercado com poucos incentivos. Configurado em oportunidade para jovens atores em começo de carreira, ele consiste em cursos de dois anos de duração, que terminam com uma montagem profissional no Mezanino do Centro Cultural. Dirigido ao público jovem, o Núcleo já apresentou cinco peças desde sua formação, entre elas Motorboy, de Aimar Labaki e direção de Débora Dubois, e Romeu e Julieta, peça shakesperiana dirigida por William Pereira.
A jovem dramaturga Lucienne Guedes, chamada para participar do projeto em fevereiro, explica que teve um reencontro com a literatura do escritor gaúcho. Segundo ela, estes encontros, premeditados ou naturais, feitos em processo colaborativo com todo o elenco e equipe, são o foco da peça.B, Encontros com Caio Fernando Abreu é marcada pelo fragmentado, insights de sua obra e lembranças de sua morte. A própria encenação no mezanino do Centro Cultural, um corredor de 45 metros onde cabem apenas 50 espectadores, reforça a idéia da via, estrada onde os personagens se encontram e, muitas vezes, se separam.
Baseada em livros como Morangos Mofados, um dos maiores sucessos editoriais da década de 80, e Triângulo das Águas, que ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance, entre outros, seu elenco jovem se encaixa eficientemente em temas como a solidão, a censura política e a busca pela dignidade e uma vida regrada. A destacada atuação de Alex Gruli, como o mendigo narrador e participante das histórias, traduz a eloqüência e crueza da obra do escritor. As atuações são complementadas por uma trilha sonora bem selecionada e mistura elementos do rock e MPB, a maioria canções cantadas ao vivo.
Entre contos, romances, poesias, peças teatrais e crônicas nos principais jornais e revistas do país, Caio Fernando Abreu sempre esteve situado na intensidade do momento presente, reflexo de sua vida breve, pois morreu de complicações provocadas pelo vírus da AIDS aos 47 anos. Seus contos, publicados sob o Regime Militar, foram proibidos, considerados demasiadamente obscenos. Apesar das diferenças, todos os seus personagens são caracterizados pela paixão e inconseqüência, impulsionados pela traição, abandono, rejeição, morte e medo.
Daí se pode pensar que a peça, assim como a obra de Caio Fernando, é uma apologia do niilismo. Mas o próprio autor sempre viu a marginalização da sociedade como algo que pode ser transposto, apesar de dar o título cruel de um de seus maiores sucessos, Morangos Mofados, à juventude de sua época. Principalmente neste romance e em Triângulo das águas, as situações adversas de seus personagens os impelem a progredir. O mesmo acontece na peça, que tem uma reviravolta inesperada e o prisma de dois ângulos, opostos que se complementam.
Ao lado de belas cenas, algumas necessitam talvez de maior contextualização e embasamento, mas esta crítica é contornada pelo argumento de seu diretor, que afirma que o texto está em sua segunda versão e é um espetáculo em processo, longe de estar finalizado. Assim como as homenagens a este escritor, que traduziu uma geração que encontra muitos reflexos na moderna.
*publicada no Digestivo Cultural
Marília Almeida

6.6.06

As gangorras de Hatoum


LITERATURA*
Milton Hatoum já é um escritor “meio” novo. Apesar de Dois Irmãos ter sido considerado por críticos literários o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos, ele já é visto como um escritor conservador diante da experimentação da nova geração, composta por autores como Sérgio Sant'Anna e Marçal Aquino. Mas, às vezes, é mais eficiente beber na fonte de clássicos como Falkner. E Hatoum o faz sem pestanejar.
Ele inova ao situar o romance em Manaus, na Amazônia da década de 50 e 60, e colocar como protagonista seus imigrantes árabes. Yaqub e Omar são irmãos gêmeos descendentes destes imigrantes. Do seu nascimento até os conflitos que progressivamente abrem um abismo entre eles, temos como pano de fundo a rápida expansão regional do comércio portuário, que tem seu ápice em pleno regime militar, quando imigrantes de todo país chegam à região em busca de abrigo. As mudanças e características dos bairros, os meios de transporte precário para cruzar o rio, os índios retirados de suas tribos e usados como empregados enriquecem o livro e mostram um Brasil pouco explorado na nossa literatura e, contraditoriamente, em estado bruto.
Dois opostos e um conflito. Dois Irmãos, lançado em 2000 e relançado este ano em edição de bolso pela Cia. das Letras, não é o único romance no qual Hatoum utiliza-se desta fórmula. Cinzas do Norte já contou a história de Mundo e Arana, dois intelectuais, um revolucionário amoral e um autocrítico moral. Yaqub e Omar são, respectivamente, a figura do ambicioso e a do imediatista, do racional e do irracional. Mas são os adjetivos patriota e subversivo que os tornará, inevitavelmente, perigosos um para o outro em tempos de plena ditadura.
A partir desta oposição, há o conflito inevitável. E, assim como em Cinzas do Norte, está sempre subentendido que a união dos dois opostos, tão requeridos pela irmã dos gêmeos, seria perfeita e ideal. O que era para ser apenas um conflito entre os dois envolve todos ao redor. O único que sai ileso e observa toda a degradação dos personagens do olho do furacão é o narrador, figurante com pouca ou nenhuma influência sobre os fatos e que vai sendo descoberto aos poucos. Tudo o que sobra é, como o autor bem resume em entrevista ao Digestivo, "a memória inventada da tribo".
O romance é permeado por um fio de tensão que nunca se arrefece. Fino, mas resistente e angustiante. Ao final, é desalentador. Não há soluções prontas e toda a tentativa dos personagens de se entenderem e viverem harmoniosamente vai sendo desconstruída aos poucos, como uma lenta tortura. Não há esperanças e isto pode se tornar um pouco exagerado e enfadonho, ainda mais quando se trata de uma família e eventos que, aparentemente, não mudariam a visão de uma pessoa com relação a outra ou criaria ódio.
Mas os personagens de Hatoum são fortes e dúbios. Puro sentimento e paixão. Portanto, perfeitamente humanos, oscilando entre o oito e o oitenta. Não temos como concordar totalmente com nenhum deles. Acabamos por cair na mesma armadilha que eles próprios: raspamos na intolerância com relação ao outro. E, ao fechar o livro, ficamos nos perguntando o porquê. E a resposta teima em se afastar de nosso raciocínio, indefinidamente.
Dois Irmãos é seu segundo livro, demorou dez anos para ser publicado e o foi nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Holanda, Grécia e Líbano. Seu romance anterior, Relato de um certo Oriente, ganhou o Prêmio Jabuti de 1990. Autor que se inibe com o sucesso, Hatoum é autocrítico e, apesar de ter passado sua infância em Manaus, declara separar bem sua biografia e obra. E não tem vergonha de assumir seu embasamento proveniente dos bons e velhos clássicos. Boa respirada e surpresa em meio a calorosa discussão sobre os novos autores nacionais.
Marília Almeida
* publicado no Digestivo Cultural

3.6.06

O melhor do lado B

MÚSICA*

Se estivessem vivos, os velhos mestres da MPB certamente ficariam orgulhosos em testemunhar a redescoberta de pérolas musicais desconhecidas. Os amantes de raridades, pelo menos, já podem comemorar: a seleção de um repertório singular se concretizou com o casamento de flauta e piano no recente CD homônimo dos instrumentistas Andréa Ernst Dias e Tomás Improta, lançado pela Biscoito Fino. O álbum reúne somente o melhor do lado B dos principais compositores, com gêneros que passam pelo choro, bossa-nova, jazz, erudita e terminam no impressionismo francês. O resultado do trabalho pôde ser conferido no show de lançamento do disco, no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo. Os músicos subiram ao palco no último dia 9 de maio, durante o Instrumental Sesc Brasil, projeto que reúne a cada semana vertentes consagradas da MPB.

O álbum não se limita ao virtuosismo da dupla de intérpretes, veteranos no cenário musical, mas traz como carro-chefe as facetas desconhecidas de grandes compositores: um Tom Jobim mais denso e obscuro (“Estrada Branca”), Jacob do Bandolim com uma graça inédita (“Cristal”) e Moacir Santos como pouco se viu (“Coisa 9”). O repertório traz ainda Edu Lobo e Chico Buarque (“Choro Bandido”), Pixinguinha (“Só para mim”), Villa-Lobos (“Saudades da Minha Vida”), Garoto (“Meditando”), Dorival Caymmi (“Horas”) e Gabriel Fauré (“Après Un Revê”). "Escolhemos as melhores e mais raras melodias exploradas pela flauta", explica Andréa, acostumada a acompanhar orquestras de câmara e rodas de choro desde pequena. Confiante no trabalho ímpar realizado pelo pianista, ela completa: "Tomás privilegiou harmonias refinadas, realçadas com propriedade nos seus arranjos".
Sem contestações, Improta mostra que possui maturidade de sobra para improvisar ao piano, imprimindo grande intensidade musical com um tom incisivo e marcante. Além de gravar ao lado de Caetano Veloso, Djavan, Nara Leão, Luiz Melodia, Baden Powell e Chico Buarque, o pianista conhece profundamente a MPB e o jazz, é jornalista, protagonista de uma série de discos solo e escritor de livros didáticos sobre música. Sob a luz do palco, é notável que sente os arrepios provocados pelos acordes na platéia. A parceria com a flautista carioca só poderia resultar em uma bela harmonia de contrários, já que ambos traçaram percursos distintos na música, ainda que, juntos, conseguiram equilibrar emoção e disciplina no tempo certo.
"Edu e Moacir gostaram muito do que ouviram", garante Andréa em resposta ao balanço inicial do álbum. Cuidadosa e concentrada, ela demonstra uma intimidade perfeita com a embocadura da flauta. Emite vibratos (ondulações no som) incorrigíveis, mérito dificílimo para um instrumento com grande desigualdade de registros. Para ressaltar, os flautistas devem possuir domínio absoluto sobre os agudos, extremamente sensíveis a variações, bem como o controle correto da respiração pelo diafragma, e, ainda, sensibilidade para qualquer alteração na afinação. O próprio Pixinguinha (a quem os músicos fazem questão de dedicar o álbum), gigante do choro e merecedor do título de maior flautista do Brasil, quando adoeceu, nunca mais conseguiu recuperar o domínio do instrumento, motivo que o obrigou a trocar a flauta pelo saxofone, tamanha a sua complexidade.
O disco é o primeiro trabalho solo da flautista, dona de um portfolio musical abrangente, com destaque para a participação no último CD de Chico Buarque, Carioca, que também leva o selo da Biscoito Fino. A escolha do repertório foi conseqüência de um concerto apresentado pela dupla no Rio de Janeiro. "Grandes músicos como Fauré, Cole Porter e Villa-Lobos compuseram inicialmente suas canções para voz e piano. São serestas incontáveis, praticamente inéditas de tão desconhecidas", revela Improta, que criou novos arranjos para os originais, substituindo a voz pela flauta. Adaptações também marcam a tônica do álbum, como aponta Andréa. "Decidimos adequar o choro tradicional de Pixinguinha para uma levada de tango, e o clima da canção de Tom Jobim, desconhecida inclusive para seguidores da bossa-nova, ganhou uma envoltura semelhante à new age." A façanha para o improviso é tão notável quanto a disciplina, o que permite a alternância de funções entre flauta e piano, ora melodia, ora percussão. Tais propriedades só poderiam resultar em uma sonoridade fascinante. Mérito raro, ainda mais nestes tempos, quando nem os revivals de mega-clássicos parecem dar um gás na saturação criativa das últimas décadas.
* Publicado no DigestivoCultural.com
CounterData.com

email hotsing
email hotsing Counter