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27.3.06

O indie é pop

MÚSICA


Esqueça os bares escondidos em sótãos, pois ao que tudo indica, a cena indie brasileira está caindo nas graças do gosto popular e começa a pisar nos palcos dos maiores festivais do país. Ironia ou não, as chamadas gravadoras independentes, tutoras da música underground, nasceram justamente para produzir álbuns em pequena escala, de modo a valorizar a liberdade do artista em detrimento do lucro. Isso parece ótimo depois de uma década de esvaziamento cultural (anos 90), roubada pelo domínio das multinacionais sobre a produção artística. Com certeza, a internet e o MP3 foram os grandes favorecedores de bandas desconhecidas, logo que o acesso a músicas in natura se difundiu em larga escala. O indie está ficando pop? Os adeptos mais radicais do cenário certamente não aceitam a tendência. Contudo, há um exemplo audaz da febre que arrasta uma legião considerável de fãs: a banda paulistana de electro pós-punk Cansei de Ser Sexy (CSS).

As seis garotas e o guitarrista admitem que mal sabiam tocar um instrumento quando o grupo começou, em meados de 2003. Lovefoxxx, a vocalista, comenta que a idéia inicial era criar uma banda ruim, propositalmente. Dessa forma, letras e arranjos foram produzidos via internet e as músicas, gravadas de improviso em ambiente doméstico. Prontas, foram colocadas no site da Trama Virtual – um espaço para divulgação de sons independentes no formato MP3. O estrondo foi imediato: estacionaram por semanas consecutivas no topo dos 100 mais executados, junto com 35 mil arquivos disponíveis. O som agradou não apenas aos internautas, como chamou a atenção da imprensa. Sites e jornais chegaram a citar que o homem-chave do punk britânico, Malcom Mc Laren, estava de olho no talento dos paulistanos, comparados por ele, inclusive, ao lendário Sex Pistols.

Tamanho foi o frisson, que a Trama pegou carona para criar um selo indie, responsável pelo primeiro disco do CSS, que acabou marcando presença no Tim Festival e Motomix. Não bastando, bastidores estrangeiros estiveram na cola do grupo: a música Meeting Paris Hilton foi tema de uma série britânica na Fox. Além disso, suas composições fazem parte da trilha sonora do game The Sims 2. É notável que a banda conquistou um reconhecimento dificilmente alcançado no cenário brasileiro e internacional, inclusive por artistas de grandes gravadoras. Mas ainda não é fácil distinguir o que é apenas confete e qualidade de verdade.

O som, se não agrada, ao menos diverte. Com acordes repetitivos de guitarra e a indispensável ajuda de sintetizadores, o CSS lembra o estilo de Fischerspooner e Audio Bullys, sofisticado e jovial. Apesar da audácia das letras, repletas de palavrões e referências ao ciberespaço, nada é revolucionário, exceto o fato de brasileiros ganharem status no palco do punk britânico. Na verdade, o que os diferencia das bandas que gostariam de estar em seu lugar é a atitude, não pela postura ideológica, que, aliás, inexiste, mas pela presença de caricaturas. O grupo mistura fortes conceitos de moda em um figurino inusitado com uma teatralização improvisada. Nada que justifique, contudo, seu bônus, se comparados a ícones do rock setentista, que com malabarismos e maquiagens lúdicas já quebravam microfones à exaustão. Diversão e música regem os shows do grupo, talvez sem o cuidado de cair no erro de desfavorecer o som em favor do estilo.

A ascensão de Cansei de Ser Sexy, a exemplo de Strokes e Franz Ferdinand, que saltaram do universo underground para o consumo popular, vai de encontro ao fenômeno de resistência às produções pasteurizadas de mercado. Em outras palavras, o receio de quem segue à risca o conceito indie é que ele caia no sistema que critica, o da mercantilização. Ainda é cedo para dizer o que o MP3 nos reserva, se é um canal realmente acessível à diversidade ou se, apenas, um termômetro estatístico que vai selecionar os mais executados para brilhar ao grande público. Mas é possível, enfim, o casamento das massas com a diversidade e a liberdade individual artística? Qualquer palpite pode ser equivocado.
Tais Laporta

Cinema-teatro, com jeitinho brasileiro

CINEMA
A temática pode parecer batida. É outra história ambientada em nossas terras áridas, mais precisamente em Nordestina, cidade do sertão baiano, e que retrata seu povo e costumes. Também é outra história de amor, assim como Lisbela e o Prisioneiro. Mas, mais do que um retrato da pobreza ou muro de lamentações, o filme consegue edificar um roteiro extremamente inventivo, que acaba por desmanchar os aparentes clichês iniciais. A Máquina, filme de estréia do diretor pernambucano João Falcão e baseado no livro de sua mulher, Adriana Falcão, é quase um thriller, que prende, encanta e surpreende.

Ele é a história de Antônio de Dona Nazaré (interpretado pelo sobrinho do diretor, Gustavo Falcão) que, devido a fenômenos sobrenaturais, é nomeado ‘filho do tempo’. Em uma cidade esquecida no mapa do Brasil, Antônio vê seus 12 irmãos mais velhos partirem em busca de horizontes, mas a paixão pela bela Karina (Mariana Ximenes), que sonha em ser atriz e fugir da cidade ao completar 18 anos, o mantém pregado à sua raiz. Na tentativa desesperada de trazer o mundo para sua amada, ao invés de deixá-la perseguí-lo, Antônio declara, em um programa sensacionalista na TV, que pode provar que tem o poder de se transportar pelo tempo para ver o prazo de validade do mundo onde vive. Caso não o consiga, oferecerá sua vida. O diretor assume que gosta de trabalhar com pessoas conhecidas, seja de sua família ou de trabalhos anteriores, como os atores Wagner Moura e Lázaro Ramos. E acerta na escolha.

Logo no começo, a voz de Paulo Autran, narrando a história, dramaticamente e de maneira poética, surge na tela. É impossível não pensar na linguagem teatral que tanto caracterizou o ator, que usualmente não faz cinema, e o resto do filme confirma a tese, seja pela fala versada e cantada dos personagens, o cenário improvisado de estúdio ou trilha sonora que interage com a trama, seja em um show no baile à fantasia até em clip na TV. A Máquina, afinal, é a refilmagem de um livro que virou peça de teatro, mas não se basta neste conceito. Falcão vai além ao fazer a incrível junção desta linguagem com a fotografia cinematográfica, que a recorta e enche de beleza. Profundidades, ângulos ousados, iluminações diversas e dinamismo de videoclip. Tudo é utilizado para que a peça ganhe novos contornos, inclusive a utilização concomitante do passado, presente e futuro.

Ganhador de prêmios como melhor filme de ficção, trilha sonora, atriz e roteiro no I FestCine Goiânia, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura da região; e melhor filme de ficção eleito por júri popular do Festival do Rio, o filme participou de mostras competitivas como Premiére Brasil, Mostra internacional de Cinema de São Paulo e Festival de Tiradentes, em Minas Gerais. Sua produtora, a Diler Trindade & Associados, tem como acionista majoritário o empresário Diler Trindade, que, segundo a revista americana Vanity Fair, é um dos dez produtores mais promissores do mundo. Produtora que contabiliza mais de 24 longas-metragens lançados, assistidos por 24 milhões de espectadores, A Máquina é o primeiro em busca do cinema arte, após produzir infantis campeões de bilheteria, protagonizados por Xuxa e outros apresentadores globais. Diler acredita que o Brasil tem desprezo pelo cinema popular, ao contrário dele, que gosta tanto deste cinema, que dá o nome de mortadela, como do cinema caviar. Filme poético, filosófico e inovador que, ao mesmo tempo, entretém com as emoções conhecidas de uma história de amor e fantasia, A máquina consegue ter um sabor raro: meio mortadela, meio caviar.

Marília Almeida

21.3.06

Quando os gatos são pardos

LITERATURA

“São Paulo é a cidade mais fácil do mundo para ser cronista. Vou andando, o assunto agarra meu tornozelo e diz: me usa, me usa”. É o que revelou Ignácio de Loyola Brandão, considerado o cronista da capital, apesar de sua origem interiorana, em um dos debates da Bienal do Livro de São Paulo. Ele carrega consigo um pequeno bloco, onde anota situações que alimentam sua vasta obra, que já soma 27 livros, entre crônicas, contos, romances e infanto-juvenis. “Inspiração é observação. Olhar para o olho das pessoas, o interior, minha cidade, por onde ando, escutar e ouvir as pessoas”.

É a São Paulo da década de 60, seus interessantes e únicos personagens, que surgem sempre quando o sol se põe, que resgata em seu primeiro livro, Depois do Sol, primeiramente lançado pela Brasiliense, em 1965, e recentemente reeditado pela Global Editora, incluindo making off e personagens que o inspiraram, quando o autor completou 40 anos de carreira. Na época, Ignácio começava sua carreira como jornalista no jornal getulista de Samuel Weiner, o Última Hora, onde trabalhou por quase dez anos. Morador do centro da cidade, fazia parte da boemia da cidade. Toda noite fazia via-sacra em boates, bares e inferninhos com seus colegas de redação.
Clubinho, na Rua Rego Freitas, boca de luxo que reunia pintores, escritores e outras figuras notívagas; o restaurante Gigetto, na rua Nestor Pestana, com seus artistas, diretores e desfile de celebridades; o pessoal do Teatro Oficina; o inferninho Snobar, na Bento Freitas, onde, para fazer um programa, tinha que ser figura carimbada; Juão, templo da bossa nova e os pombais da boca de lixo são palco de inspiração de Loyola para os oito contos que reúne nesta obra. A capital é, por ora, coadjuvante silenciosa ou protagonista, em contos como São João Mão Única, retrato de um congestionamento na avenida, na época, e Aos Sábados Eles Mandam na Praça, o ritual diário pelo qual passava a Praça Roosevelt, aos sábados, onde as mais diversas classes sociais e estilos freqüentavam seus cinemas, à noite.
Mas, mais do que uma cidade já caótica, os contos retratam as experiências pessoais de seu autor e personagens inspirados em pessoas que se relacionou. Loyola fala abertamente do baixo salário que ganhava na época, o glamour da carreira, como burlava necessidades financeiras para se divertir, sua doença e visão sobre o golpe militar, mostrando uma juventude intensa, retratada com primor em Retrato do Jovem Brigador, inspirado em um colega de redação.
Além disso, havia a moda, que surgia na cidade com as modelos da Rhodia e era o sonho de consumo de meninas do subúrbio, desde a prostituta do inferninho até a menina de família. Ascensão ao Mundo de Annuska foi inspirado na modelo Giedre Valeika, na época grande manequim da Rhodia. Delicioso, lembra Bonequinha de Luxo, de Truman Capote. Ele, juntamente com A menina que chupava chupeta, que mostra a visão da prostituta sobre a ascensão na vida, se entrecruzam. São duas histórias de amor, dois mundos opostos (ou não), duas personagens bem elaboradas. Retratos crus e reveladores.

Plagiando os ousados layouts que promoveram o livro, criados por amigos do autor quando ainda não havia tal propaganda e muitos donos de livrarias as recusaram, antes de falar mal de Loyola, leia este livro. Depois, fale mal com conhecimento de causa. Enquanto a gente dorme, acontecem coisas incríveis na cidade. Loyola conta tudo, neste livro.
Marília Almeida

19.3.06

‘Noventa’ anos de solidão


LITERATURA

A velhice acaba de ser reinventada com Memórias de Minhas Putas Tristes (Ed Record, 2005), mais recente romance do Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Márquez. O título pode soar como mera pretensão de contos de bordéis. O mestre da narrativa, no entanto, vai tão longe a ponto de transformar o comércio do prazer em um pretexto para dissecar a alma humana. A crítica, cheia de pudor, tentou injuriar a obra, alegando que ela incita a pedofilia. Isso porque, ao completar noventa anos, o personagem (narrado em primeira pessoa) decide presentear-se com “uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. Sem nunca ter deitado com uma mulher sem pagá-la, o velho descobre, ao tentar realizar uma fantasia, o primeiro amor de sua vida.

Delgadina é o nome da escolhida para satisfazer os desejos do nonagenário. Virgem e pobre, a menina receberá todas as economias do velho em troca de seu corpo. Mas, chegado o momento do encontro, García Márquez expõe as víceras de um ser humano que se depara com fantasmas vivos: o medo da velhice, a ansiedade frente à impotência e a perplexidade diante da pureza. A garota adormecida na cama desperta o sonho de um mundo que ele nunca conheceu. Se sente indigno de corromper tamanha beleza, quase infantil, o que o leva a confrontar desejo e inocência numa poética sobrehumana. Dessa forma, por diversas noites, ele paga a dona do bordel por momentos a sós com a ninfeta, que nunca se encontra acordada na sua presença, e, assim, permanece até que ele vá embora.

Enquanto isso, o velho passa horas em claro admirando Delgadina. Tenta adivinhar detalhes de sua vida e deseja-a mais adormecida do que acordada, para que possa idealizar na estátua de seu corpo todos os amores que não vingaram. Se apaixona louca e gradativamente, em plena velhice, regressando ao ardor de um amor adolescente, vívido – e nunca vivido. Sem jamais ter recebido uma palavra da amada, ele paga o que não tem para sentir sua respiração e compra presentes como se faz a uma noiva. O universo da paixão platônica é tão intenso que, certo dia, se depara com uma enlouquecedora crise de ciúmes diante de sua beleza, o que o faz quebrar com violência todos os objetos do quarto.


Não é a primeira vez que García Márquez escreve sobre amor na velhice. Em Amor nos Tempos do Cólera, ele narra a história de um jovem que, desprezado pela amada, espera toda sua vida, até que ela fique viúva, para experimentar a paixão inconcebida. A diferença é que, em Putas Tristes, o personagem passa de cama em cama, literalmente, durante ‘noventa anos de solidão’, até que, no fim da vida, descobre o amor. E ele é tudo o que jamais viveu e não poderá viver, porque só existe por ser intocável, na plenitude do sono da amada. Lembra, inversamente, o famoso conto de fadas A Bela Adormecida, já que, aqui, o amor só nasce a partir de um beijo, com o despertar da moça.

Pode-se dizer que depois de vastas publicações literárias, nosso autor está menos politizado e mais centrado nos conflitos internos do ser humano. Ele prova que não perdeu o fôlego, apesar da idade avançada. Pelo contrário, se revigora com uma narrativa tão bem costurada quanto às demais, deixando nada a desejar. Afinal, acima de qualquer pretensão erótica, ele ensina que o fim da vida não é apenas tempo de lamentar o não ocorrido, mas é, acima de tudo, uma estação onde os sonhos não podem morrer. Quem se permite viver todas ilusões possíveis não pode deixar de ler esse referencial.

Tais Laporta

14.3.06

As facetas de Clooney

CINEMA

FILMES DO OSCAR III
A maré está boa para o ex-galã da série de TV Plantão Médico, que nunca havia participado do Oscar. George Clooney fez uma boa estréia na festa de gala de Hollywood como diretor de Boa Noite Boa Sorte (Good night, and good luck). Apesar de não ter levado estatuetas para casa, apenas a de melhor ator coadjuvante por outro filme, Syriana, que cujo papel, a propósito, exigiu muito de si (ele engordou 14 quilos e se feriu gravemente ao filmar uma cena, chegando a dizer que foi o melhor e pior papel de sua vida), seu filme, onde, além de diretor, foi ator coadjuvante e co-roteirista, foi indicado em seis categorias: Melhor Filme, Melhor diretor, Melhor Ator, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Roteiro Original. Balanço muito bom para um estreante no mais alto mundo de Hollywood.

Clooney chamou a atenção, principalmente, por ter se tornado um ator e diretor politizado, com preferência por histórias com fundo histórico e político. Clooney é reconhecidamente anti-Bush e, após chamar atenção para a indústria do petróleo, o terrorismo e a decadência da CIA em Syriana, em Boa Noite, boa sorte dá uma cutucada na mídia de massa de seu país e na política americana no Oriente Médio, parecendo incrivelmente atual. Ele resgata a carreira do âncora de TV da rede CBS, Edward Murrow (David Strathairn), principalmente seu embate, na década de 50, com o senador Joseph McCarthy, que empregava sua caça aos comunistas no país. Ele se passa em uma TV recém implantada nos Estados Unidos, mas que já mostrava sua grande influência e poder.


Originalmente concebido para ser um especial para a rede CBS, o filme é impecável. Com um orçamento de US$7,5 milhões, não tem pretensões e se passa, praticamente, em um único ambiente: a rede de TV CBS. Clooney acerta em usar de todos artifícios disponíveis para não tornar o filme um documentário. Para começar, não há letreiros ou imagens de época para situar o público, mas, sim, um discurso de Murrow em uma festa em sua homenagem, que resgata toda sua carreira. As imagens de arquivo são usadas discretamente (McCarthy, no filme, é o próprio), livrando uma boa história de ser enfadonha. Há até mesmo um casal de atores ilustrativos, Joe (Robert Downey Jr.) e Shirley Wershba (Patrícia Clarkson), que acabam dando um tom leve à tensão do filme, apesar de, às vezes, ficarem um pouco deslocados na trama. Até mesmo a deliciosa trilha sonora, destacada no filme com a própria banda atuando em um dos estúdios da emissora, tem algo a acrescentar se prestarmos atenção às suas letras.

Sobram cigarros, máquinas de escrever e jornalismo romantizado em preto e branco, em seu eterno embate com a ética inerente da profissão e a guerra mercadológica dos meios de comunicação, na eficiente atuação de Strathairn. Clooney, no filme, é seu editor, um papel meio ‘banana’, mas que confirma sua promissora carreira, após uma pouco falada estréia como diretor com Confissões de uma Mente Perigosa, em 2002. Parece que o galã largou de vez o papel de bom moço e, conseqüentemente, está bem mais interessante.

Marília Almeida

11.3.06

Brokeback Mountain, choque rosa-choque

CINEMA
FILMES DO OSCAR II

A temática da subversão não cansa de ser uma bandeira que, levantada, acaba falando mais alto que a forma, a densidade, a originalidade – em outras palavras, é histérica. Para desespero dos simpatizantes de Os Segredos de Brokeback Mountain (EUA/2005), dirigido pelo taiwanês Ang Lee, das oito indicações recebidas pelo maior prêmio do cinema, apenas três categorias receberam a estatueta: direção, roteiro adaptado e trilha sonora. Não tardou para a crítica especializada concluir que a homossexualidade é um tabu que a academia hollywoodiana ainda não superou. Já os fãs da produção usaram menos eufemismos, atribuindo o que foi considerado um “fracasso” a puro preconceito. Contudo, vale lembrar que o filme não é composto apenas por um elemento (no caso, a abordagem gay), mas por unidades substanciais como fotografia, figurino, elenco e edição, julgadas separadamente. Ainda assim, a produção venceu duas das categorias mais cobiçadas, direção e roteiro adaptado. Os três prêmios não bastam, portanto?

Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennie Del Mar (Heath Ledger)


Ang Lee conseguiu, ao escolher as terras áridas do oeste americano, conquistar o coração da mais alta casta do cinema hollywoodiano com uma temática nada convencional, vamos reconhecer: a paixão secreta entre dois jovens cowboys na década de 50. Impossível ignorar que o período marcou o ápice dos grandes filmes épicos do faroeste, reforçados pela inquestionável virilidade dos personagens. Aliás, uma fachada que, para ser "confirmada", era exposta a todo custo com demonstrações de coragem e brutalidade. Assim como as bruxas estavam para a inquisição e os cristãos para o império romano, a homossexualidade estava para aquele tempo e espaço (guardadas as devidas proporções). Apesar disso, o ‘q’ da questão não é a perseguição a tendências rosa-choque, mas simplesmente o amor entre duas pessoas que, nas frias montanhas de pastoreio, encontram um refúgio para sugar todo o oxigênio dessa atração, ainda que esporadicamente, por anos a fio.

Em outras palavras, deixando de lado a temática gay, o que resta é um filme de amor proibido. Ainda que atraente, a receita é um clichê conhecido. Então, que tal arrebanhar a simpatia do público com as formas de sempre, aproveitando o impacto do choque moral? De fato, o filme arregala as pupilas de massas desacostumadas com beijos gays, acompanhados de um rebanho de ovelhas. Bela composição para uma história de amor que a todo momento poderia dar certo, mas não dá. Esses empecilhos compõem a fórmula exaustiva de qualquer soap opera. No entanto, apesar de recorrente, o tema teria um mérito louvável –compatível ao alarde que se criou – se não caísse no risco de ser ressaltado em detrimento de outros elementos, como a originalidade.

O roteiro segue sua lógica bem elaborada, apesar das quase três horas de história contada a passos vagarosos. Trilha sonora e fotografia (a paisagem ajuda) ganham o lugar certo. Diálogos e interpretações são salvos por atores razoavelmente bons, saídos do forno da fama. Não deixam a desejar, mas também não impressionam, até porque papéis homossexuais não são novidade nem na convencional hollywoody, e já renderam o reconhecimento merecido a uma renca de atores – com destaque para o Oscar de melhor atriz para Hilary Swank, em Meninos Não Choram.

Fãs e afins possivelmente não concordarão, mas não podem negar que o filme do diretor taiwanês se sustenta mais pela vitória do dilema moral – romper um tabu da sociedade – do que por características como a genialidade, um dos requisitos essenciais para a composição de uma obra-prima.

6.3.06

Beckett – 100 Anos - Esperando Godot



TEATRO

A peça Esperando Godot, dirigida por Gabriel Villela, em cartaz no Sesc Belenzinho desde fevereiro e até o final deste mês, antecipou a comemoração do centenário do escritor irlandês Samuel Beckett (1906-1989), em abril. Ganhador do Prêmio Nobel em 1969, entre contos e poemas sem sucesso e peças montadas que seguiram o niilismo e diálogos marcantes de sua grande obra, foi criado Esperando Godot, aclamada pela crítica como sua obra-prima e marco do Teatro do Absurdo, após contínua rejeição de montadores. Escrita em 1949, foi revolucionária no sentido de transpor para o teatro a não-ação, inverter a linearidade da época e retratar com diálogo recheado de tiradas de humor negro proporcional à angústia e confusão que é a face do abandono humano.

Composta de dois atos, que, assim como em outras peças do autor, são, basicamente, a mesma encenação, com pequenas diferenças, Esperando Godot retrata dois vagabundos, que lamentam e relembram tempos melhores e esboçam arrependimento, esperando eternamente por Godot, do qual temos vagas referências do autor e que a crítica transformou desde uma metáfora de Deus (Deus, em inglês (God), com o sufixo diminutivo francês, língua original da peça, “ot”, que engrossa a ironia da peça quanto à questão religiosa), até mesmo a um literato provinciano, que defendia a encenação da tragicomédia quando esta era rejeitada pelas críticas do classicismo. Nesta longa espera, procuram por distrações e brincam com diálogos mal-formulados e personagens que passam pelo seu caminho. O jogo de palavras confusas, que se atropelam, conseguem se sobrepor à não ação que permeia a peça, reforçando a angústia e mantendo a tensão sobre o ‘nada’.

A montagem de Villela foi, em grande parte, ajudada pelo local, localizado no subsolo do teatro do Sesc. A impressão que uma vala circular metros abaixo da terra causa sobre a angústia dos personagens é eficiente e o palco circular permite a eles um movimento vicioso e estático. Mas, ao mesmo tempo, prejudica alguns efeitos que visam reproduzir o firmamento, logo contornados por sua criatividade e boa elaboração do figurino. Vilella, porém, dá continuidade à preferência dos diretores brasileiros por atrizes na encenação da peça, sendo que seu autor foi enfático quanto à sua preferência por atores masculinos. Antes de Vilella, houve a primeira montagem profissional brasileira, em 1968, em qual temporada Cacilda Becker teve seu derrame fatal; a dirigida por Antunes Filho e encenada por Eva Vilma, Lílian Lemmertz e Lélia Abramo em 1976 e, por fim, a montagem da Armazém Cia. de Teatro, com Patrícia Selonk.

Apesar da atuação impressionante de Vera Zimmermann como o carregador explorado Lucky e o Menino, que traz mensagens de Godot, além das eficientes de Magali Biff, como Vladmir, e Lavínia Pannunzio, como o arrogante ‘dono’ de Lucky, Pozo, Bete Coelho parece demasiada afetada na figura de Estragão, que parece necessitar de mais força e decisão para a indiferença inerente de suas falas. Além disso, houve a limitação do tempo da peça pela estrutura de horário do Sesc, apesar da já pesadas duas horas da montagem para uma peça densa como esta, que exige muito de seus atores. Mas o primeiro ato sai praticamente ileso e, o segundo, acelerado. Nada que altere o sentido da peça, que deve ser muito relembrado e, principalmente, confrontado, no próximo mês, assim como o foi por muitas décadas. Beckett, afinal, é isso: polêmica. E merece ser lembrado.

Marília Almeida

5.3.06

Ressurreição do velho Woody


CINEMA

Quando ninguém mais ousava esperar produções entusiasmantes do velho Woody Allen, passada uma década de filmes pouco inventivos, o diretor dos antigos roteiros e montagens engenhosas ressurge das cinzas da genialidade com uma tacada certeira: Match Point – Ponto Final (Inglaterra/ EUA/ Luxemburgo/ 2005). Sem alarde nem grandes pretensões, uma trama recheada de lugares comuns – paixão, ciúmes, traição, assassinato – se transforma, nas mãos de Allen, num verdadeiro caldeirão de metáforas. A escolha de Londres, bem como de um elenco jovem e talentoso, são ingredientes decisivos para o desenrolar de um roteiro que parece ter dado tão certo quanto sugere a própria proposta do filme: provar que sorte e azar estão separados por um espaço tão tênue que o fator mais ínfimo pode alterar o destino de uma vida inteira.

Contudo, nada parece tão fatídico numa trama que a olhos desatentos pode ser interpretada como ordinária. Um professor de tênis (Jonathan Rhys-Meyers) dá aulas a um jovem da elite britânica, e logo se envolve com sua culta e polida família, ocasião em que conhece Nola (Emily Mortimer), irmã do rapaz. Visto como partido ideal da correta moça, Chris logo nota que seu relacionamento entediante é ameaçado pela atração arrebatadora que sente pela futura cunhada. A paixão é inevitável, e vai se estender ao limite de encurralar o personagem a uma decisão crucial: abandonar a vida bem-sucedida com a esposa, ou ignorar a paternidade que deveria assumir ao lado da amante grávida. Até aí, o velho clichê dos triângulos amorosos, explorado à exaustão pelo cinema. Porém, mesmo quem já não tem fôlego para a sequência adultério-gravidez-arrependimento, não pode ficar indiferente à profundidade crescente que a trama conduz em torno do personagem.

Neste ponto mora a riqueza da produção, repleta de referências a grandes clássicos, mais explicitamente à obra-prima de Dostoiéviski, Crime e Castigo. Quem leu o livro nota que, principalmente quando Chris opta pelo crime, a comparação é inevitável – não necessariamente como um paralelo, porém como releitura e, ainda, contestação ao clássico russo. Ousadia demais, diriam mentes feridas. Mas não, lê-se como mera inteligência e originalidade. Allen remonta um paralelo às avessas mostrando que, diferente do livro, nem sempre o fim inexorável de um crime é o castigo. Casualidades podem, ao menos na sacada do diretor, presentear o criminoso com um destino feliz. Claro que não é fácil aceitar essa idéia quando ela vem à tona na tela do cinema – razão de muitas expressões de indignação, é verdade, com as surpresas que o roteiro reserva.

Elementos passíveis de comparação também esculpem a montagem, colocando em confronto mundos que se chocam sem se encostar. O personagem central é a parede que divide esses universos: a aristocracia londrina e o despojamento americano; o tédio do casamento e a exitação adúltera; a moral e a anarquia; a culpa e a inocência; o castigo e a absolvição. Diálogos habilidosos, diretos e precisos estão presentes à maneira das antigas obras-primas de Allen, mais uma prova de sua ressurreição cinematográfica. Uma trilha sonora densa, operística, explora a atmosfera que rege o mundo interior dos personagens. Sequências e cortes que dizem por sí só, sugerem, escondem, deixam no ar...Ao contrário das expectativas, o bom e velho Woody recuperou a vitalidade que parecia perdida para sempre – contornada por um ponto decisivo, ou melhor, o seu Match Point.

Tais Laporta

1.3.06

As duas cores do escândalo

LITERATURA

Não se sabe ao certo qual é o limite dos grandes escritores para escancarar as hipocrisias da sociedade e desnudar a psicologia humana. Um dos poucos que tiveram o êxito de fazer isso com tamanha avidez foi Stendhal, que, com o modesto objetivo de referir-se à sua França, acabou fazendo de O vermelho e O Negro uma crítica voraz à humanidade.

Ao mergulhar profundamente nos frios objetivos de seu personagem, o jovem Julien Sorel, o célebre autor presta contas de como a mente humana trabalha em sociedade: tal qual um jogo repleto de regras, ataques e auto-defesas. Depois de passar a vida estudando e ter decorado todo o Novo Testamento, Julien vai trabalhar como preceptor dos filhos do prefeito de Verriers, cidade imaginária da França. Lá, utiliza todos recursos que encontra para conquistar o coração da primeira-dama da cidade. Frustrado o adultério após a desconfiança do marido, Julien parte para Paris, onde se apaixona por Mathilde, filha de um marques em cuja casa passa a trabalhar como secretário.

A esta altura o romance já é considerado um escândalo não só por leitores contemporâneos ao lançamento da obra, em 1830, mas também pelos atuais, que sentem na pele o pudor não da moralidade, porém das idas e vindas que as mentes apaixonadas executam, bem como seus planos mirabolantes colocados acima de qualquer coerência. Na verdade, Stendhal deixa livre no ar um jogo de amor e ódio entre pessoas que ora se desejam, ora se repelem: desprezo e asco alternados por total dependência pelo outro, com direito a picos impressionantes de elevada auto-estima e fases de depressão profunda.

Aqui o leitor não encontra meios-termos. Julien é pobre e utiliza os conhecimentos adquiridos em um seminário para alcançar uma posição de prestígio na sociedade, e para tanto, não mede esforços em exarcebar sua sabedoria frente aos nobres. Ao mesmo tempo, parece ter momentos de racionalidade ao recusar algumas propostas de trabalho que aparentemente o elevariam a patamares superiores. Mesmo com essas ressalvas, suas atitudes são regidas pela frieza dos planos de ascensão, embora que para questões sentimentais como o amor, esqueça toda a racionalidade e se entregue completamente ao desafio da conquista. Talvez esteja aí a mesquinhez que aponta Stendhal a respeito da sociedade francesa: um mundo de aparências deve se sobrepor a qualquer verdade, seja ela qual for. Uma vez conquistado o amor de suas donzelas, Julien as despreza completamente. Não é difícil encontrar traços de nossa própria personalidade no jovem francês, embora essa idéia soe asquerosa.

O Vermelho e o Negro leva no nome a alternância de cores fortes, assim como acontece aos sentimentos humanos. Cores que chocam não por acaso: nos fazem enxergar nos outros e em nós mesmos o quanto somos contrários ao que aparentamos ser. Mesmo que nos consideremos mortais comuns e sem grandes ambições. No entanto, sentimos na pele o universo de um herói às avessas, capaz de ferir alguém por amor a outrem, e se apaixonar pela vítima depois do ato consumado.

Tais Laporta

Capote dividido

CINEMA

FILMES DO OSCAR I



Quem lê a obra prima do jornalismo literário, A Sangue Frio, não percebe que seu autor, homossexual assumido, chegou a se apaixonar pelo protagonista, Perry Smith, assassino que acabou enforcado no corredor da morte americano, após matar uma família de fazendeiros no Kansas. Há no livro um desmembramento mais profundo da psicologia de Smith do que de seu comparsa do crime, Dick Hickock, e a tendência é acreditarmos que tinha uma perturbação mental e era, até mesmo, inocente, levado à tragédia por sua infância de abusos. Estes sentimentos controversos foram vividos pelo autor no longo processo de montagem de sua maior obra literária, desde o momento do assassinato, em 1959, passando pela perseguição aos assassinos até a sentença que culminou em suas mortes.

Foram seis anos torturantes que Benett Miller retrata em Capote, seu recorte da biografia do autor baseado no livro de Gerald Clarke. Com a atuação prodigiosa de Philip Seymour Hoffman, o filme é um retrato da extensa pesquisa de campo que o livro demandou para recriar os assassinatos (Capote chegou a ter seis mil páginas de anotações), além da possibilidade que criou ao transformar uma nota de rodapé do New York Times e um artigo que escreveria para The New Yorker em um livro, mostrando que o jornalismo cotidiano pode ser aprofundado e criativo. Mas seu foco é, principalmente, seu relacionamento dúbio com Smith e sua dedicação à obra, levada até às últimas conseqüências.

Ao longo do filme somos expectadores da fria condução de sua obra-prima, paralelamente à crescente afeição por seus personagens. Capote divide-se freqüentemente entre o solitário menino do meio-oeste vítima dos abandonos da mãe, que entende Smith, e o escritor metódico que deseja a morte de seus personagens para que possa finalizar sua obra. Uma bela passagem do filme tenta desvendar a personalidade controversa do escritor-jornalista e analisa que ele e Smith viviam na mesma casa, porém, Smith saiu pela porta dos fundos e, Capote, pela da frente. Esta parece ser a distância entre eles, o que faz com que Capote consiga o objetivo de humanizá-lo no livro, mas não querer sua libertação.

Apesar de muito elucidativo da personalidade de Capote e retrato do momento mais brilhante de sua vida literária, o filme retrata apenas em flashes o mundo das celebridades no qual estava inserido. Querido pela high society, dançou com Marylin Monroe, teve atrizes como grandes amigas, bebeu e fofocou muito até que se sentiu seguro para mostrar as estórias que ouviu em um livro após A Sangue Frio. Capote já havia reproduzido uma em Bonequinha de Luxo, perfil pitoresco, mas com sátira suave, tornado clássico do cinema com Audrey Hepburn. Desta vez o pequeno terror faria críticas contundentes, apesar de cuidadosamente colocadas sob pseudônimos e, após reproduzir alguns capítulos de seu futuro livro em jornais, foi visto como pária. Na segunda tentativa, perdeu a luta entre sua vida e a literatura e deixou-se levar pelas drogas. É o mal do escritor não- ficcional, que reproduziu a vida, demasiadamente, real.
Marília Almeida
CounterData.com

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