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24.8.06

Mozarteum 2006 para iniciantes

MÚSICA**


Os números da tradicional associação cultural brasileira são impressionantes. Em seu 25º ano, a Mozarteum, que já trouxe para o país a Filarmônica de Viena, Munique e Nova Iorque, além da inglesa Royal Philharmonic, já realizou 894 espetáculos, 539 com artistas internacionais e 355 com nacionais, para um público que já soma quase dois milhões de pessoas. Sua temporada de 2006, que começou em maio e irá se estender até outubro, já teve 16 apresentações nas principais capitais do país.

Entidade sem fins lucrativos, apoiada por leis de incentivo a cultura e empresas privadas, visa contribuir para a difusão da música clássica em um país carente dela. Seus concertos são, por vezes, apresentados ao ar livre, o que amplia o seu acesso. Além disso, há matinês de ballet para crianças e jovens e os Concertos do Meio-Dia, realizados no MASP, ambos com entrada franca. O festival comumente doa bolsas de estudos de cursos internacionais de verão para jovens músicos, dá cursos de história e interpretação e promove um intercâmbio entre músicos nacionais e internacionais através das Master Classes, onde músicos de grandes orquestras dão aulas a estudantes de música brasileiros.

A programação, mesmo focada na música clássica, é diversificada: são orquestras, solistas, grupos de música de câmara, óperas e companhias de dança. Após as alemãs Orquestra Sinfônica WDR de Colônia e Orquestra Filarmônica de Câmara de Freiburgo, esta composta por estudantes e cujo coro tocou em parceria com o Coro Barroco da Bahia; além dos grupo norueguês Solistas de Trondheim, também composto majoritariamente por jovens músicos, foi a vez do Quarteto Mitchell-Tomter-Poltéra-Leschenko se apresentar no Theatro Municipal de São Paulo nos dias 31 de julho e 1º de agosto.

O quarteto apresentou músicas de câmara, considerada a de mais difícil deglutição por ouvidos virgens à música clássica. Ao invés de uma grande orquestra, com muitos ápices musicais que levantam e impressionam qualquer platéia, há, basicamente o som do violino, violoncelo, viola e piano. Ficou difícil? Quem é leigo no universo regido por gênios como Mozart, Bach & Cia., mas adora este som transcendental não apenas no bip do celular, pode relaxar. O Mozarteum tem, desde 2001, o Clube do Ouvinte, uma série de palestras educativas gratuitas que são ministradas antes dos concertos da Temporada Internacional, destinadas à platéia de cada apresentação.

O maestro, compositor e pianista Sérgio Igor Chnee já logo nos situa, nos introduzindo à composição da música de câmara. Ela é composta por, no máximo, cinco músicos, todos com a mesma importância musical, ao contrário de uma grande orquestra sinfônica, onde cada um é reforçado por um conjunto musical. Esta equidade reflete até mesmo no nome do grupo. Composto por jovens músicos, a voz de sua experiência reside no violista norueguês Lars Anders Tomter, considerado um dos maiores violistas atuais. O Gigante da Viola Nórdica já se apresentou nas maiores orquestras sinfônicas e em famosos festivais mundiais. Mas, ao lado de Priya Mitchell, uma jovem violinista que toca um Balestieri de 1760, há o contraste que cria a sintonia, complementado pelo diligente violoncelo de Christian Poltera e o ágil dedilhado do piano de Polina Leschenko.

Depois de terem executado obras de Mahler, Mozart e Dvorák, em sua 2º apresentação o quarteto tocou três compositores muito diferentes entre si. O austríaco Franz Joseph Haydn é o pai do classicismo e seus trios são considerados a 2º parte mais importante de sua obra, caracterizada por contrastes sonoros. Já o alemão Johannes Brahms fazia parte do romantismo e está mais próximo de fontes clássicas como Bethoven. Por fim, Gabriel Fauré, compositor francês, encontrou abertura para o experimentalismo, o que faz com que suas obras sejam entrecortadas de vazios sonoros propositais. Fica fácil perceber as características do minueto do quarteto ao ouvirmos CD guiados por Chnee. Ele é composto por um movimento rápido, um lento, uma dança e um segundo rápido, o gran finale.

Após a palestra, eis o concerto em si. Haydn nos é apresentado através de seu Trio nº 39 para piano, violino e violoncelo, em sol maior. Com seu violino em embate com o violoncelo e tendo o piano como fio condutor, encontramos em um mesmo movimento humor e agressividade. Já Brahms é dramático no primeiro movimento de seu Trio para piano, viola (clarinete) e violoncelo, op.114, em la menor. Há contrastes, uma conversa entre violoncelo e viola para depois se fazer a presente a leveza, quase parando, seguida por uma dança com muitos ápices e um final raivoso expresso em seu piano. Por fim, há o virtuosismo e melodia do Quarteto com Piano nº1, op.15, em dó menor de Fauré. Nele, o piano é o ator principal e o que vemos são fragmentos difusos, que sobem e descem para acabarem em uma fúria sóbria. E esta sobriedade se perpetua em nossos sentidos após este gran finale do quarteto.

A partir dia 17 de setembro, a temporada que celebra os 25 anos do Mozarteum continua. Desta vez, o Parque do Ibirapuera, a Sala São Paulo, Blumenau e Rio de Janeiro receberão o violinista com trinta anos de carreira e reputação mundial Gidon Kremer. Em outubro, Rudolf Buchbinder terá apresentação única na Sala São Paulo, onde mostrará um pouco de sua extensa obra de cerca de cem discos e, por fim, a soprano inglesa Dame Felicity Lott, que já trabalhou com quase todas as maiores orquestras e festivais mundiais, se apresentará em dois dias, também na Sala São Paulo*.

*programação sujeita a alterações

Marília Almeida

**publicado no Digestivo Cultural

17.8.06

Ninguém segura Lady Macbeth

TEATRO*
Depois de subir aos palcos com Gerald Thomas (Esperando Beckett) e Aderbal Filho (A Peça sobre o Bebê), a atriz e jornalista Marília Gabriela encara seu terceiro desafio no teatro: protagonizar a imponente Senhora Macbeth, personagem secundária de Shakspeare, que ganha uma aura de destaque na nova montagem dirigida por Antonio Abujamra, em São Paulo. Em cartaz até 20 de agosto no Sesc Vila Mariana, Senhora Macbeth é uma livre adaptação do clássico medieval, escrita pela Argentina Griselda Gambaro, que desenhou uma ótica atual e feminina para o conflito vivenciado pela esposa do sanguinário Macbeth.

Sob os holofotes, o roteiro ganha um aprofundamento psicológico raramente visto no teatro brasileiro, o que justifica sua merecida repercussão na América Latina e, recentemente, na Europa (mais precisamente, Espanha e Suécia). “A Griselda foi muito feliz em lançar luzes sobre essa personagem pequena em Shakspeare, mas muito importante sob a perspectiva do amor e do poder. É uma mulher ambiciosa, sensual, apaixonada, enfim, cheia de hormônios”, define Marília Gabriela, justificando a personalidade que aprendeu a incorporar – e que, de certa forma, empresta de si mesma. Mas é justamente ao explorar o lado mais vulnerável da personagem que a atriz se esforça para afogar a mulher auto-suficiente que reside nela mesma. Sobressai na interpretação, contudo, uma Sra Macbeth poderosa. “Sou movida pelos mesmos impulsos que ela. Paixão, arrebatamento, tesão, loucura, coragem, isso eu tenho também”, acredita.

No original de Shakspeare, escrito em 1623, Lady Macbeth é tão ambiciosa e calculista quanto o marido. Muitas interpretações garantem que foi ela quem fez a cabeça do amado para assassinar seus inimigos, e assim, conquistar o trono da Escócia. Diz ela em trecho do clássico: “Vinde, espíritos sinistros que servis aos desígnios assassinos (...). Enchei-me, da cabeça aos pés, da mais horrível crueldade!”. Sem dúvida, o dramaturgo construiu uma mente sedenta por poder, escondida nas sombras do grande personagem shakespeariano. A adaptação de Griselda concebeu um novo universo interno para a Senhora Macbeth que sobrevive até hoje. No caso, toda ambição de poder é esmagada pelo amor absoluto que ela devota por aquele homem. Aí nasce o conflito de uma mulher anulada no amor e cega por poder, prestes a perder seu sangue-frio para o sentimento de culpa.


Marília Gabriela pisa no palco com cabelos negros e um figurino imperial, realçado pelos oportunos efeitos de som e iluminação do espetáculo. Mas esses apelos sensitivos não desviam o foco do brilho e lucidez da peça. Quase todo o tempo, a atriz divide a atenção com as três bruxas de Macbeth, interpretadas por Natália Corrêa, Danielle Farnezi e a veterana Selma Egrei – o ator Eduardo Leão faz uma ponta especial. Com grande propriedade cênica, o trio atormenta e consola a ambígua personagem, a ponto de travestir sua consciência, como aponta Gabriela. “Elas têm uma ironia feminina que falta à Senhora Macbeth. É um homem lidando com três mulheres, um ser culpado por amar um assassino e ansiar o poder, enfim, uma mulher com conflitos acima de tudo humanos. Ela é o homem que não deu certo até hoje”.

Na preparação para o espetáculo, Abujamra e Hugo Rodas, co-diretor da peça, revezaram o comando dos ensaios com vieses opostos: o trágico e o cômico, respectivamente. Daí, a montagem só poderia resultar em uma tragicomédia. “Ele (Abujamra) queria apostar comigo em que momento sairia a primeira risada na platéia”, brinca a atriz sobre a recepção do público. Logo que aceitou o desafio de encarnar a Senhora Macbeth, ela reconhece que sentiu insegurança. “Num primeiro momento achei que não ia conseguir, não sabia para que lado ir com a personagem”. Com o tempo, o frio na barriga passou, e ela garante que entra no palco do mesmo jeito que sai, bem confortável.

Se Abujamra está pleno da competência da atriz? “Há muitos anos digo que ela deve envelhecer no palco e largar o jornalismo. Agora surge essa surpresa maravilhante, esse rigor!”, define com tais palavras o diretor, que também é admirador incondicional e amigo de Griselda Gambaro. “Suas peças têm uma inclinação para a beleza como poucas pessoas sabem fazer”, justifica o afeto. O grande trunfo da Argentina: o ser humano que ela retrata se sobressai à mulher, num mundo criativo onde os papéis dos sexos estão bem divididos. Para o diretor, é um privilégio levar o texto da autora a São Paulo, já que não duvida da forte possibilidade da peça se tornar um sucesso aplaudido mundialmente.

Aos desavisados uma dica: quem não conhece a história original de Macbeth, melhor ler a peça ou assistir a uma das adaptações em filme antes de comprar os ingressos. Por mais que a montagem seja desprendida do clássico, há inúmeras referências a fatos e personagens de Shakespeare sem grande contextualização, o que pode dificultar o entendimento do expectador. Mas isso não significa que é uma peça solitária na erudição. Pelo contrário, é popular e moderna. Nada que anule, portanto, a atualidade, a beleza e a poesia do espetáculo.

Senhora Macbeth
Sesc Vila Mariana – São Paulo
Sexta e sábado, 21h. Domingo, 18h.
De R$ 15 a R$ 30.
Até 20/08

*Publicado no DigestivoCultural.com

9.8.06

FIT 2006 - Fim de uma trilogia teatral

TEATRO*
Depois dos posts "FIT I" e "FIT II", resta-me dizer que acabou mais uma edição do FIT (Festival Internacional de Teatro), que me deixou com o já dito e desdito gosto de "queria ter visto mais", principalmente Assombrações do Recife Velho, baseada na obra de Gilberto Freyre e encenada pela companhia Os Fofos Encenam (muito por causa de seu cenário: um casarão antigo que coube perfeitamente no tema que tratou: o sobrenatural), além da colorida peça de rua Caetana, da pernambucana Duas Companhias. Porém, além das produções internacionais, ainda deu tempo de conferir duas nacionais bem diferentes entre si: o monólogo Um dia Antes da Floresta e o infantil Viagem ao Centro da Terra.
Produzida pela companhia paulista Brancalyone Produções Artísticas e dirigida por Francisco Medeiros, seu texto é da obra de um dramaturgo francês "maldito", o soropositivo Bernard-Marie Koltés. O ator Otávio Martins, indicado ao Prêmio Shell de Teatro, não decepciona em um monólogo tenso que começa morno e é por vezes redundante, mas sempre ascendente.
Em 70 minutos, Otávio vive um maltrapilho estrangeiro que trava um diálogo em uma esquina da louca vida noturna com um "outro" inexistente. Sua narração é vertiginosa: um diálogo impossível, em que parece falar com o triste retrato de si mesmo. A solidão é veemente e, o discurso, um retrato fiel da zoológica sociedade moderna, com seus tipos bizarros, como prostitutas que comem terra do cemitério. O cenário ajuda para criar um sentimento de desolação. Composto por um bloco que imita uma calçada, é rodeado por espelhos sujos e emporcalhados.
Utilizando-se do teatro de sombras, bonecos e projeções que rememoram os primeiros anos do cinema, a Cia de Teatro Artesanal, do Rio de Janeiro, que já havia participado do FIT com a peça Cyrano de Berinjela, montou a peça baseada no texto de Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra. A produção, feita no ano passado, foi patrocinada pela Prefeitura do Rio através do Fundo de Apoio ao Teatro e tem cenário e figurino inspirados nos filmes dos irmãos Lumiére e George Méliès. Com faixa etária recomendada a partir de oito anos, conta com boas atuações de Cid Borges, Edeilton Medeiros, Kátia Kamello e Nilton Marques.
Passada no século XIX, nela o teimoso Professor Lidenbrock e seu sobrinho Axel empreendem uma viagem para o centro da terra quando conseguem desvendar o segredo de um pictograma. Os diálogos são fiéis à precocidade da faixa etária a qual se destina. A impressão é de que tudo acontece ao mesmo tempo, agora. E o grupo tem a seu favor o fato de utilizarem diversos meios, o que deixa a criançada estarrecida com tanta informação e, conseqüentemente, com a respiração suspensa. E o melhor da peça: não trata a criança como "criança", apesar de se utilizar do elemento fantasia a cada segundo. Tudo é muito rico na narrativa e a volta a tecnologias antigas em meio à "geração IPOD" consegue surpreender.
Por fim, em um balanço do evento, muito se disse que o FIT é, mais do que uma mostra de produções nacionais e internacionais, um painel de ousadias. Isto é confirmado em certo sentido através desta pequena mostra do festival que pude contemplar. São produções de grupos desconhecidos e, outros, nem tanto. Que ganha pontos ao mostrar muitos espetáculos fora do circuito teatral SP-RJ e, definitivamente, de difícil acesso. Afinal, o teatro, infelizmente, ainda sofre com o bairrismo, queiramos ou não. Além disso, acertou ao mostrar produções internacionais em que, na maioria, a barreira da língua não é o problema, pois utilizam muitos recursos visuais e, com isso, transpõem grandes distâncias culturais e educacionais, tão tristemente reais em nossa sociedade brasileira.
Após estas conclusões, não é surpresa que o FIT se configure em um festival que tem ampla tradição do alto de seus mais de 30 anos, apesar de ter obtido o formato atual somente a partir de 2002. Antes, ele era um painel competitivo, com direito a premiações. A edição de 2006, especificamente, inovou ao chamar críticos conhecidos como Antonio Hildebrando, Tânia Brandão e Antonio Cadengue, para cobrir todas as produções exibidas e dar a cara para bater.
Porém, antes do show acabar, o melhor, leitor, é saber que, caso este humilde relato o tenha deixado com água na boca e com vontade de experimentar as mais diversas sensações que estes espetáculos proporcionaram, muitos deles seguem em cartaz em outros estados e cidades.
A produção francesa Aberrations du Documentaliste (Aberrações de um bibliotecário) esteve em cartaz no Sesc Santana, em São Paulo, até o dia 06 de agosto. Já a peça russa Noite de Reis, texto de Willian Shakespeare produzido pelos criadores e diretores da Cia. Cheek by Jowl, grande decepção do FIT pela sua não-apresentação, abriu a Estação de Teatro Russo Brasil 2006 nos dias 25 e 26 de julho. Composta por mais quatro produções, a mostra será apresentada em diversas unidades da rede SESC até o dia 08 de outubro.
Outros estados da região sudeste também puderam ficar tranqüilos. Les feuilles qui resistent au vent (As folhas que resistem ao vento), de Koffi Koko, e a espanhola Una madre coraje y sus hijos em el purgatório (Uma mãe coragem e seus filhos no purgatório) participaram da 8º edição do FIT em Belo Horizonte, versão mineira do festival que conta com basicamente os mesmos patrocínios, exibe muitas peças do FIT de Rio Preto e terminou dia 06 de agosto. Mas ainda dá tempo de ver a peruana Cuentos Pequeños (Contos Pequenos), que fará temporada no Rio de Janeiro e Assombrações do Recife Velho, em temporada no SESC Santana de 12 de agosto até o dia 10 de setembro.
*publicada no Digestivo Cultural
Marília Almeida

5.8.06

9º Búzios Jazz & Blues II

MÚSICA*

A última noite do 9º Búzios Jazz & Blues foi uma das mais aguardadas pelo público. A expectativa ficou por conta do menu de atrações com altíssimo nível, e também pelo próprio sábado (29), dia que recebe mais turistas na região. Embora o balneário estivesse lotado, um imprevisto espantou a multidão por volta das 20h. A chuva chegou com força em Búzios depois de dias de sol escaldante em pleno julho, e expulsou os que já esperavam pelo show do Funk Como Le Gusta na Praça Santos Dumont. A água não deu trégua nem meia hora, nem sessenta minutos depois. Mesmo com chuva e ruas vazias, a big band paulistana subiu no Palco Tim de Música por volta das 21h40, e não deu outra. O repertório adocicado do soul-samba-funk atraiu guarda-chuvas que em pouco tempo tomaram a praça.

Embalados por sax, flauta, trompete, trombone, bateria, teclado, percussão e baixo, os 14 integrantes da banda privilegiaram a harmonia coletiva em detrimento dos solos. Enquanto o público desviava das poças para dançar, o Funk Como Le Gusta provava que é mesmo um forte representante da sofisticação instrumental brasileira. Arrisco dizer que o grupo se equipara, em qualidade e estrutura, com a banda Mantiqueira – guardadas as grandes diferenças entre ambas, já que esta possui uma levada menos híbrida, fiel ao jazz. Na apresentação, o grupo tocou o repertório dos CDs Roda de Funk e FCLG, que traz grooves consagrados, trilhas de cinema e clássicos latinos dos anos 70. Nas faixas, "SOS", "Latina", "Tabasco", "Tá Chegando a Hora", "Funk de Bamba", "Somos do Funk", "Zambação" e "Vertiplano".

Funk Como Le Gusta no Palco Tim de Música

Um quarteirão adiante, no mesmo horário, a Dixie Square Band já tocava standards do jazz nas calçadas molhadas da Rua das Pedras. Um verdadeiro ritual de “Dançando na Chuva”, mas ao som dos clássicos "Ain't She Sweet", "Basin Street Blues", "Sweet Georgia Brown" e "Limehouse Blues". Logo em seguida, o Pátio Havana recebeu o Memphis la Blusera, que repetiu o desafio de levantar o público, como na noite anterior. Só que, dessa vez, num ambiente mais recluso. Ainda que com menos espaço para se expandir aos moldes do último show, o grupo argentino não perdeu o vigor. O vocalista Adrian Otero e o saxofonista Emilio Villanueva se destacaram com a mesma presença, dividindo a atenção coletiva da casa de shows. Influenciado por Robert Johnson, Muddy Waters, John Lee Hooker e B.B. King – com quem dividiu o palco posteriormente – o Memphis foi aclamado, em duas noites, por exigentes públicos: o diversificado, na praça de Búzios, e o seleto, na casa cubana.

Mas ainda estava por vir uma das atrações mais quentes do festival. Por volta de meia noite, o mestre da guitarra, Eric Gales, lançou no ar os primeiros acordes, dedilhados no palco do Chez Michou. A partir daí, a chuva perdeu toda a importância. A habilidade que ele aprendeu aos quatro anos de idade em Memphis, Tennessee, já foi equiparada à do imortal Jimi Hendrix. Em entrevista antes do espetáculo, no entanto, ele não pareceu satisfeito com a comparação. “Eu sou eu, entende? Eu faço meu som, é todo meu”. De fato, Gales domina a guitarra com tanta peculiaridade, que soa simplista demais colocá-lo no patamar de grandes mestres. Sua unicidade sobressai, também, no timbre de voz grave, de um blues autêntico vivamente nascido no gospel. Acompanhado de instrumentos com igual apuro, o guitarrista mandou uma mistura de rock contemporâneo, funk e blues com uma naturalidade impressionante. Na ficha técnica do artista, alguns que se revelaram seus admiradores: Carlos Santana, Mick Jagger, Keith Richards, B.B. King e Eric Clapton.

Eric Gales em entrevista

Nesse clima, Gales encerrou o festival – para usar um clichê necessário – com chave de ouro.E foi assim que Búzios virou a terra do blues e do jazz, pelo menos por quatro dias. Apesar de sua importância, o festival não pretende ser o maior do país, e talvez esteja longe disso. Mas em termos de qualidade e diversidade, ele se supera e sai na frente de muito evento do gênero. Primeiramente, porque não é elitista ou discriminatório. Estavam lá a criança e o velho, o rico e o pobre, que queriam – e podiam – ver os artistas. Para o Brasil, esse é um avanço cultural sem precedentes. Nem a chuva derrubou a noite, e nem o som ofuscou o brilho das praias. Litoral e jazz é uma combinação perfeita, contagiante, uma descoberta ímpar. Um roteiro altamente peculiar, que pode ser visto, pelo menos, uma vez por ano.

Tais Laporta

Publicado no DigestivoCultural.com*

9º Búzios Jazz & Blues I

MÚSICA*
Vida noturna intensa, bares, galerias de arte e praias de uma beleza estonteante. Onde mais a mistura dos ingredientes cultura e badalação pode dar tão certo? Na penúltima das quatro noites que contemplam o 9º Búzios Jazz & Blues, pude notar que a região central de Búzios abrigava um clima musical inconfundível, já estimulado pelos dias anteriores. Nos primeiros momentos do festival (26 e 27 de julho), prevaleceram logo de cara o virtuosismo e a mistura de gêneros. Passaram por aqui o habilidoso saxofonista Blas Rivera; o grupo carioca de poli ritmos e gerações, Garrafieira; o aclamado compositor e instrumentista Marcos Valle; o tradicional, porém inovador Trio Azymuth; e, ainda, o cantor e guitarrista Big Joe Manfra, um dos mais respeitados representantes do blues no Brasil.

Cumprindo o que prometeu, a noite de ontem (28) atraiu um público eclético, formado por turistas – casais, famílias, crianças, estrangeiros, teens e idosos – e nativos (a grande minoria). A praça Santos Dumont – que abriga o Palco Tim de Música – até então tomada apenas por feiras de artesanato, ficou apinhada, lá pelas 20h30, logo que o grupo argentino Memphis la Blusera colocou seus instrumentos para funcionar. Grande sucesso internacional, a banda de veteranos surgida nos anos 60 conseguiu, sem grande esforço, mas com suor, fazer o que muitos tentam sem sucesso: o público dançou, literalmente, nos estreitos espaços da multidão. Sim, a praça ficou pequena ao som de jazz “dançante”, e o Memphis cresceu com o fôlego do vocalista Adrian Otero, que alternou agitação e romantismo. Isso sem falar nos solos, absolutamente oportunos, no comando de Daniel Beiserman (baixo acústico), Emilio Villanueva (sax), German Weidemer (órgão) e Lucas Sedler (guitarra). Cada um a seu tempo, sem exageros e com muita propriedade.

Adrian Otero, vocalista do Menphis la Blusera

Pouco depois, mesmo antes da banda encerrar, um som distante entrecortava o espetáculo. Vinha da Rua das Pedras – a mais badalada de Búzios. Era o Dixie Square Band, e que surpresa: passando por vários pontos da via, a banda de jazz fazia o público interagir musicalmente, formando quase uma “orquestra paralela” de percussão em palmas junto dos melódicos instrumentos de sopro. Durante todas as noites do festival, o grupo passeia a céu aberto tocando clássicos estrangeiros e nacionais, entre eles “Aquarela do Brasil”, a imortal composição de Ary Barroso. Abro um parêntese para uma observação que não pode passar incólume. É a primeira vez que presencio uma interação tão grande entre público e jazz em espetáculos abertos. A contemplação fria e o distanciamento a ritmos “não convencionais” quase sempre prevaleceram por parte de um público, diga-se, diversificado. Para um gênero tão complexo e seletivo, Búzios é um verdadeiro milagre musical no que se refere à quebra de códigos entre o popular e erudito.


Bobby Lyle no Pátio Havana

Claro que há exceções, como as apresentações fechadas do Pátio Havana, que aconteceram ontem por volta das 23h. As reservas para assistir ao consagrado pianista Bobby Lyle se esgotaram em pouco tempo. Um público distinto e comportado ficou notoriamente hipnotizado pela sofisticação do blues ao piano, acompanhado no baixo por Alberto Continentino, na bateria por Allen Pontes e no sax por Leo Gandelman, destacado com louvor na edição anterior do festival. Arriscando um português correto, Lyle expressou a satisfação de tocar em uma noite e um local “tão especiais”. E pode colocar especial nisso. O Pátio Havana dá de cara para um mar gigante, iluminado pela costa e pela lua, e confere um clima que – aliado à alta performance do som – é um verdadeiro privilégio dentro do balneário. Incansável, o show alcançou a madrugada sem desviar o interesse do público.

Para encerrar a noite – e que noite – o Chez Michou, logo em frente ao Havana, recebeu, por volta das 2h, a mistura das mais variadas sonoridades brasileiras com o trio Bossacucanova. O grupo, formado por Alex Moreira, Marcelinho DaLua e Márcio Menescal (filho do Roberto Menescal), nasceu de experimentações em estúdio que propunham misturar batidas eletrônicas a ritmos convencionais como o samba e a bossa nova. Resultado: um estouro há oito anos na Europa, EUA e Brasil. O ponto alto do grupo são as releituras do acid jazz, que fundem a sofisticada harmonia melódica com os beats do rap e do funk. O som no Chez Michou agradou principalmente a um público mais jovem, que bem antes já lotava o espaço à espera do grupo. Mais uma prova de que jazz e agitação combinam mesmo, principalmente em Búzios.Amanhã tem mais. A última noite do festival promete com mais presenças ilustres. E nós vamos acompanhar.

Tais Laporta

Publicado no DigestivoCultural.com*

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