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29.10.06

O apanhador sem sonhos


LITERATURA

Um clássico literário pressupõe grandes revoluções na escrita, assim como temas graves. Mas corajoso e também digno do título é o clássico que se firma com simplicidade e retrata, a partir de um pequeno tema, uma geração de seu país. O clássico em questão é o único romance de seu autor e poderoso instrumento para sua reclusão, o que o torna mais destacado e precioso: O Apanhador no Campo do Centeio.

Seu protagonista, o jovem Holden Caufield, é um adolescente proveniente de uma família de classe média que será expulso de um renomado colégio da Pensilvânia, pois não tem ânimo algum para os estudos, apesar de ser um garoto com potencial, conforme declara seu professor de história, uma das poucas pessoas a quem Holden dá um voto de fé, o que não significa muita coisa vindo do protagonista. Ele passa por um esgotamento mental crescente no qual quaisquer atos que inspirem hipocrisia e falsidade é razão para brigas e rupturas, muitas vezes traumatizantes.

O livro é o seu relato, narrado em 1º pessoa, produzido em um centro de recuperação, onde se encontra após ter atingido o ápice deste estado emocional. O que é contado logo no início do livro não tira seu suspense: ao longo de toda a história não sabemos do que Holden é capaz para chegar à internação. Ele está amorfo, ausente de sentimentos positivos e declara linha por linha sua visão cética e irônica do mundo, mas, ao mesmo tempo, idealizadora e inocente, expressa por uma linguagem simples e até mesmo repleta de gírias de um adolescente comum, o que fez com que o livro fosse censurado em diversos locais do país.

Toda a história gira em torno da fuga de responsabilidades de seu protagonista. Ele não quer chegar em casa para comunicar sua expulsão e a partir deste ato conhece um novo mundo, mais assustador e falso do que o vislumbrado entre as paredes do colégio. Holden é sincero e, pode-se dizer, puro, o que, irremediavelmente vai fazer com que ser engolido pela humanidade seja inevitável. As únicas pessoas que lhe parecem ter valor indefinido é seu irmão escritor, a quem realmente admira, e sua irmã mais nova, chave para o entendimento do título e da personalidade do protagonista. Não há motivos bem delineados para seu comportamento: apenas uma difusa desilusão com o mundo, o que faz com que o livro, por sua descrição primorosa e realista, seja também um retrato fiel da depressão.

Sua história vislumbra algumas referências bibliográficas de seu autor, J.D Salinger, que já foi considerado por um professor “o pior aluno de inglês da história do colégio”, também estudava em um colégio na Pensilvânia, teve um professor universitário que também enxergava seu discreto talento, origem proveniente da mesma classe social que Holden e seu comportamento arredio e admiração por crianças também se assemelha muito ao de seu célebre personagem. Esta teoria acompanha muitas obras de Salinger, que também foram influenciadas por suas experiências na Segunda Guerra Mundial, onde foi hospitalizado por stress, e seus relacionamentos amorosos problemáticos.

Publicado em 1951, quando o escritor norte-americano, adorador de Kafka, Dostoiévsky e Tchecov, tinha 31 anos de idade, seu sucesso assustou o autor e fez com que se mudasse de Nova York para Cornish, cidade interiorana. Depois dele, Salinger apenas publicou histórias curtas, a mais popular A Perfect Day for Bananafish, publicada pela New Yorker em 1949. Aliás, se tornou um dos seus mais ilustres colaboradores da renomada revista em uma época onde adotava escritores de talento como Joseph Mitchell. Todos seus outros livros publicados são compilações destas histórias: Nine Stories (53). Franny and Zooey (61), Raise High the Roof-Beam, Carpenters e Seymour: A Introduction (63). Seu último trabalho, o romance Hapworth 16,1924, nunca foi publicado. A personalidade de Salinger, avessa à publicidade e celebridade, continua um mistério: ele não dá entrevistas desde 1974 e não fez nenhuma aparição pública nem publicou qualquer trabalho desde 1965.

A perenidade de uma obra também a define como clássico. Até hoje, O Apanhador no Campo de Centeio vende cerca de 250 mil cópias por ano nos Estados Unidos e faz parte até mesmo de listas de livros obrigatórios em colégios do país. Em tempos onde jovens matam seus colegas de classe, professores e pais, Holden não parece um personagem despropositado. Enquanto se viver em um mundo que não compreende suas mais novas gerações, não é exagero dizer que ele poderá ser eterno.

Marília Almeida

18.10.06

Sonoridade imortal de Mozart

MÚSICA*

Há pouco mais de 250 anos, nascia na Áustria um gênio absoluto da música clássica. Para comemorar um aniversário tão célebre, teatros do mundo todo apresentam, este ano, fragmentos da vasta obra de Mozart. No último dia 03 de outubro, foi a vez da Orquestra de Câmara de Zurique aportar em São Paulo para um espetáculo singular com três concertos do mestre para piano. Com o renomado pianista Rudolf Buchbinder – conterrâneo do criador de A Flauta Mágica –, o conjunto participa da série de apresentações promovida pelo Mozarteum Brasileiro, que Marília Almeida definiu na matéria Mozarteum 2006 para iniciantes.

Por ele, os palcos receberam 11.388 artistas estrangeiros e 2.638 nacionais. Cerca de um milhão e seiscentos mil espectadores já assistiram aos espetáculos, gratuitos e pagos. Os altos números não anulam, porém, a qualidade das apresentações. Na noite fria que exaltou Mozart na Sala São Paulo, o repertório selecionado corresponde a uma das mais perfeitas realizações da música sinfônica do século XVIII. A história musical ficou grafada, para sempre, depois que o compositor levou a público seus concertos para piano.

Vale explicar em que consiste este gênero: é composto por três movimentos (rápido-lento-rápido) executados por um instrumento solista – no caso, o piano – e uma orquestra, que acompanha o conjunto sonoro, em oposição e alternância. O solo é o mais criativo, enquanto que a orquestração faz o contraponto com trompetes e tímpanos. Mas a explicação pouco importa quando se está diante de uma obra com tal magnitude: basta ouvir, que o culto e o leigo entendem a mesma linguagem universal.


Isso se confirmou logo que Buchbinder sentou ao piano para iniciar o Concerto para Piano nº 9 em Mi Bemol Maior. A criação representa um divisor de águas na carreira do compositor, por ser o primeiro grande concerto em estilo clássico maduro. Parecido com um personagem de ópera, o piano ocupa todo o primeiro movimento com um acento dramático. Ao seu lado, a Orquestra de Zurique trouxe 23 músicos com instrumentos de corda e sopro. No primeiro grupo, violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. No segundo, flauta, oboés, clarinetes, fagotes, trompas, tímpanos e trompetes.

Durante o Concerto para Piano nº 23 em Lá Maior, saíram os instrumentos mais agressivos – metais e tímpano – para dar o efeito que Mozart queria. Na obra, não se nota aquelas explosões orquestrais, nem contrastes violentos. Apresentado ao público em 1786, período do grande auge criativo do compositor (que atingiu a marca de 12 concertos em apenas dois anos), a obra prevalece com um caráter contemplativo e idealista.

Já no último momento da noite, o Concerto para Piano nº 21 em Dó Maior trouxe três movimentos com um clima mais emotivo, tomado por intensa melancolia, uma das facetas da forte personalidade de Mozart. A obra provoca inquietude, e aí mora sua beleza. Notas longas ao piano ilustram o fundo musical, enquanto que as cordas da orquestra geram sentimentos ambíguos. Alguns estudiosos interpretam a sensação provocada pelo concerto como uma contraposição proposital entre a serenidade da corte clássica e os prenúncios do romantismo.



Talento ao piano – Traduzir tão bem o espírito criativo de Mozart é privilégio para poucos. Nesse sentido, o pianista austríaco demonstrou, na Sala São Paulo, que a técnica pouco importa se não houver amor à arte. Como lembra a presidente do Mozarteum, a condessa italiana Sabine Lovatelli, Buchbinder é um artista plural. "Figura superlativa e de muitas facetas, ele caminha pela literatura e pelas artes plásticas com a mesma emoção que libera em seu raro toque ao piano". Não à toa, o músico foi considerado pelo jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung como "um dos mais importantes e competentes especialistas em Beethoven" pela gravação completa das sonatas do compositor, o mais popular da música erudita.

De fato, sua biografia revela feitos notáveis. Entre eles, o de ter gravado mais de cem discos em toda sua carreira, prova de que possui um repertório impressionante. Da vasta produção, uma mereceu destaque especial: venceu o Grand Prix du Disque pela gravação de toda obra para piano de Joseph Haydn. Mas difícil mesmo é acreditar que um profissional com tanto tempo dedicado à música ainda consiga arrumar espaço para um passatempo artístico: o de pintor amador.

Caminhos inovadores – A Orquestra de Câmara de Zurique também chama a atenção por sua notoriedade. Fundada em 1946 por Edmund de Stoutz, em pouco tempo já fazia parte da elite internacional das orquestras de câmara. Ao passar para as mãos do diretor artístico Howard Griffiths, em 1996, o conjunto assumiu uma faceta inovadora, que atraiu um público ímpar pela atualidade e diversidade. Falamos da juventude, a faixa mais dispersa em relação à música erudita em todo o mundo. A orquestra ampliou esse leque ao aceitar a colaboração de musicistas nas mais diversas áreas (jazz, composições de canções, música cigana, popular e de cinema).

Um parêntese sobre Mozart – Quem quer mergulhar no universo do gênio compositor, pode começar por um caminho acessível. No YouTube há uma série de vídeos com interpretações profissionais e amadoras de Mozart. Ou seja, desde a orquestra internacional até o tecladista iniciante, na casa dele. Também há diversas montagens e paródias – algumas ótimas, outras bem ruins. Por isso, não estranhe se encontrar sonoridades desagradáveis. Para iniciar com uma obra tocante, uma opção segura é ouvir o Concerto nº 23.

Mas a graça mesmo é se aventurar sozinho, já que não falta diversidade. Se preferir, há bons livros e sites com a biografia do mestre. Se quiser focar na música sem doer no bolso, o site Accuradio permite ouvir algumas pérolas dele. Basta clicar em "classical", localizar a gravura de Mozart e conferir o resultado.

Taís Laporta

*Publicado no DigestivoCultural.com

5.10.06

Nasi in blues*

Quem conhece o vocalista do Ira! da época em que era fã do The Clash, fazia shows alternativos e compunha letras rebeldes e, digamos, "cruas", estranharia à primeira vista seu terno engomado e visual 'Wolverine Valadão' utilizado em um programa da MTV, no Bourbon Street Club, tradicional casa paulista de blues e jazz localizada em um bairro nobre da cidade. É fácil reconhecer a tradição da casa nos diversos quadros autografados por nomes conhecidos de ambos os ritmos e ao visualizarmos o tesouro da casa repousando em uma redoma de acrílico: a guitarra Lucille autografada pelo dono, B.B King.

Mas é justamente esta a proposta do Credicard Vozes. Encaixado no conjunto de músicos nacionais que interpretam músicas em estilos ou formatos diferentes dos que os consagraram, Nasi e blues não parecem uma combinação tão inusitada. O projeto começou em 2004 com um show da cantora baiana Daniela Mercury que tinha no repertório clássicos de Chico Buarque e Tom Jobim com arranjos jazzísticos. Em 2005, Sandy apresentou jazz e bossas e neste ano Alcione já interpretou clássicos de Billie Holiday e Toni Garrido ganhou pegada rock em músicas próprias. Todos provaram sua versatilidade e isto não foi diferente com Nasi.

Produzido pelo Bourbon Street e a Credicard, o Credicard Vozes privilegia o artista cantando músicas que gosta de cantar informalmente, lançando um ou outro trabalho que siga esta linha alternativa. No caso de Nasi, que já havia lançado três CDs do ritmo com os Irmãos do Blues (Uma noite com Nasi e os Irmão do Blues – 1994, Os Brutos também amam – 1996 e O Rei da Cocada Preta – 2000), um projeto solo, Onde os anjos não ousam pisar, lançado neste ano e que agrega hip hop, pontos de umbanda e toques latinos ao blues e rock.

O Show

Foi um disco de Muddy Waters na adolescência que tornou o blues uma grande paixão de Marcos Rodolfo Valadão, o Nasi. Com participações do trombonista Bocato e do gaitista Sergio Duarte, seu repertório contempla desde o blues clássico do delta do Mississipi ao branco inglês, passando por composições próprias e versões em português para standards do gênero. O experiente saxofonista Hugo Hori assume o backing vocal e o virtuosismo dos tecladistas Adriano Grineberg e Johnny Boy contagia o ambiente descontraído diante do vocalista desbocado.

Entre as músicas tocadas, são destaques clássicos como Hoochie Coochie Man, que contou com a performance impagável de Nasi como cachorro conversando com o som da gaita de Sergio; o Blues do Assovio, versão de Mardi Gras de New Orleans feita pelo pianista Professor Longhair; I put a spell on you, música de Screamin´ Jay Hawkins que já foi regravada pelo Creedence e homenagem de Nasi ao bluseiro que tanto admira, além de músicas próprias como Poeira nos olhos e Acredito no amor, cujas letras mantêm o espírito do Ira!.

*publicada no Digestivo Cultural

Marília Almeida

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