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28.4.06

NASCIDOS EM BORDÉIS

DOCUMENTÁRIO
O Bairro da Luz Vermelha, em Calcutá, é uma das regiões mais pobres da Índia: ruas apertadas e sujas, veículos antigos, mendigos, pedintes, prostitutas e bêbados. Em que outro lugar é possível explorar melhor os vulcões da miséria humana? Uma dupla de documentaristas, Zana Briski e Ross Kaufman, contudo, conseguiu extrair talento e sensibilidade ocultados no bagaço da pobreza, o que resultou no filme Nascidos em Bordéis (Born Into Brothels). As personagens da produção são crianças filhas de prostitutas que, apesar do futuro insólito a que estão fadadas, demonstram uma tímida inocência e vontade de trilhar um caminho diferente de suas mães e avós.

Mas o documentário não se limita, a exemplo de inúmeras produções, a expor a condição sombria de crianças semi-escravizadas que vivem em prostíbulos. Ao contrário, assume o papel de agente transformador da realidade retratada: Zana trabalha como professora voluntária de fotografia das crianças. É o momento em que podem esquecer suas vidas para sair às ruas com uma câmera na mão, à cata de tudo o que desejam registrar. Revelados os negativos, as imagens são surpreendentes: verdadeiros profissionais mirins capazes de registrar detalhes de autêntica sensibilidade.

Pela primeira vez, a fachada mais discriminada de nossa cultura, a de “filhos da puta”, perde espaço para um perfil mais humano, cujo interior revela a condição universal da infância e do talento, indiferente da natureza social. Não por acaso, a produção chamou a atenção da crítica e do público pelo seu caráter participativo, embora fosse um filme de baixo orçamento, o que lhe rendeu um Oscar de melhor documentário em 2005, além do prêmio de público no festival Sundance. Os documentaristas realizaram uma exposição em Nova York com as melhores fotografias das crianças, no intuito de levantar fundos que custeassem seus estudos, única alternativa para driblarem o futuro.

Infelizmente, no entanto, o dinheiro não foi suficiente para eliminar uma cultura enraizada de subsistência nas famílias dos pequenos fotógrafos. Permitir que o filho fosse estudar em um colégio interno – privilégio para poucos na região – significava perder um auxiliar doméstico e um futuro empresário familiar da prostituição. Outro obstáculo, ainda maior, foi a relutância dos colégios em aceitar crianças descendentes de meretrizes. Todas foram obrigadas a se submeter a testes de HIV, caso contrário, seriam recusadas. O esforço dos documentaristas em oferecer uma nova opção de mundo a esses fios de vida está demarcado nas silenciosas e coloridas cenas de Nascidos em Bordéis. Este é um dos casos em que a sensibilidade fala mais alto que a técnica ou quaisquer outros recursos do cinema. Vale a pena conferir.

Taís Laporta

24.4.06

A humanidade animal

Seria apenas mais um documentário digno de ser apoiado pela National Geographic, uma das maiores organizações educacionais e científicas mundiais. Mas seu grande sucesso, que lhe colocou em primeiro lugar de bilheteria nos Estados Unidos entre audiovisuais franceses, ultrapassando os longas ficcionais O fabuloso Destino de Amelié Poulain e O Quinto Elemento, o Oscar de Melhor Documentário e sua exibição nas bilheterias nacionais após quase cinco meses de sua estréia reforça seu caráter único e abrangente. Filmado em pleno inverno austral do continente Antártico, com um orçamento de US$8 milhões, A Marcha dos Pingüins retrata um fenômeno em movimento, que dura cerca de um ano. Somente estes argumentos já bastam para se conhecer esta obra, de impressionante fotografia, principalmente nas poucas cenas debaixo da água.

Resultado de 120 horas de imagens, foi produzido, em sua maioria, por apenas dois câmeras, que precisaram de equipamentos que resistissem a -40ºC. Desde os 24 anos, o diretor Luc Jacquet já estava envolvido com a temática da Antártica. Ele tinha estudado biologia e o comportamento dos animais e preferia o trabalho de campo à formulação teórica da profissão. Mas, há apenas quatro anos começou a ter a idéia do projeto. Jacquet chama os pingüins imperadores de espécie amaldiçoada, pois pagam o preço de sua majestade durante o inverno, em seu período de procriação. Ele declarou que, para que o projeto fosse bem sucedido, teve que obedecer à natureza, pois muita aproximação poderia interferir na procriação de centenas de ovos. A versão original, em francês, é contada por três vozes: um casal e uma criança. Era de se esperar, mas a narrativa não cai no clichê ou drama, mas conta com fidelidade o que se passa na tela. A música, com uma voz feminina quase infantil e tons eletrônicos, ajuda muito para este feito.

A estória de vida dos pingüins imperadores é, no mínimo, curiosa. Estes animais lutam muito mais para sobreviverem do que, literalmente, viver. Espalhados pelas terras geladas da Antártica, sua população, dividida em diversas colônias, é estimada em 400 mil. Os pingüins machos adultos pesam de 75 a 90 quilos e podem perder 1/3 deste peso apenas durante o inverno. A capacidade de sobreviver da espécie é fantástica: os machos chegam a ficar 115 dias sem comer, aguardando que a fêmea traga comida para seu filho, que é chocado por ele, para, somente assim, poderem rumar ao encontro de comida no mar. Cada casal incuba apenas um ovo, que, por sua fragilidade, têm que ser protegidos do frio. Em alguns anos, 80% destes ovos morrem e, após nascerem, também têm que ser protegidos de possíveis predadores, que atacam pelo ar.

São igualmente interessantes os meios encontrados por uma espécie reconhecidamente aquática para sobreviver no gelo (o pingüim imperador é um ótimo nadador e seu recorde consiste em percorrer 1.700 pés em vinte minutos). Com seu andar desajeitado e ineficiente, o filme nos revela suas alternativas, como deslizar de barriga no gelo, que pode fazer com que atinja quatro ou cinco milhas por hora. Além disso, o pingüim imperador suporta diversas temperaturas apenas com a regulagem de seu próprio corpo, até mesmo tempestades de neve (que chegam a ter ventos de 162 quilômetros por hora). Em meio a idas e vindas, em uma grande colônia, seria perfeitamente possível que o casal ou filho se perdessem um dos outros. Mas um identificador vocal permite que, após segundos de canção, se identifiquem, mesmo em meio a diversas outras canções.

Mas é o aspecto social, veemente nesta espécie animal, que chama atenção e pode se configurar em uma das razões do sucesso do documentário, gênero muitas vezes relegado pela bilheteria. São características quase humanas que o espectador vê na tela e o faz refletir, pois, afinal, sem elas, a sobrevivência da espécie estaria ameaçada. Fidelidade (os casais formados se mantêm fiéis durante todo o inverno), tolerância (agrupados, bem juntos um dos outros, se protegem do frio e de outros predadores) e divisão de tarefas são algumas delas. Há também características humanas menos virtuosas, em cenas marcantes de pingüins fêmeas disputando a atenção dos machos e pingüins que, deprimidos por perderem seus filhos, seqüestram os de seus pares. Há também traços mais subjetivos, como o carinho e o zelo que estes animais têm, ou pelo seu par ou pelo filho. E estes conseguem ser registrados com a devida sensibilidade e detalhamento.

A Marcha dos Pingüins é um documentário corajoso, tanto em termos técnicos e comerciais. E nos leva, indiretamente, a uma reflexão ecológica, urgente em tempos modernos. Todo este espetáculo da natureza que está diante de nossos olhos pode desaparecer aos poucos por causa do aquecimento global. O fenômeno, ao derreter o oceano congelado, faz com que a população de krills, espécie de peixe da qual o pingüim se alimenta, diminua, pois se alimentam de algas que crescem em baixo deste oceano congelado. Em 2001 já foram relatados casos de centenas de afogamentos de filhotes de pingüins imperadores por causa do derretimento precoce do oceano. Espera-se que não chegue o dia em que o esforço do pingüim imperador será em vão.

Marília Almeida

16.4.06

"A orquestra é meu piano"

MÚSICA

Os mesmos dedos que dançavam pelas teclas do piano com a aptidão que levou o New York Times a considerá-los uns dos mais habilidosos do século XX, em 1982, hoje desfilam sozinhos no ar, regendo os acordes de instrumentos de sopro e cordas. A história do ex-pianista e maestro João Carlos Martins é exemplo nítido de que a vontade humana não conhece limites: depois de uma carreira internacional promissora como pianista, o músico se viu obrigado a interrompê-la devido a problemas com os movimentos de ambas as mãos. Oprimido por se afastar da música, certa noite sonhou que o maestro Eleazar de Carvalho o convidava para reger. Em seguida, acordou suado, ligou para Júlio Medaglia e pediu para aprender a ser maestro.

Desde então, mergulhado na rígida jornada de estudos de partituras, deu o sangue até sentir-se seguro para formar, em 2004, a Bachiana Chamber Orchestra, originada por alguns dos melhores instrumentistas brasileiros, selecionados entre as principais orquestras nacionais. O nome Bachiana é uma explícita homenagem ao alemão Johann Sebastian Bach e ao brasileiro Heitor Villa Lobos, compositores que fazem jus ao percurso do regente, aclamado pela crítica internacional como maior intérprete de Bach desde que gravou CDs com sua obra. A orquestra já percorreu as principais capitais do Brasil, além de participar de turnês internacionais na Argentina e EUA, inclusive no Carnage Hall (Nova York), teatro que consagrou Martins mundialmente como pianista.

Pelos mesmos motivos que o impediram de tocar piano, hoje o maestro coloca dezenas de instrumentos em harmonia sem a ajuda da tradicional batuta. Em pleno palco, somente com as mãos e com uma expressividade quase sobre-humana – uma verdadeira ginástica de amor pela música – o regente traduz com o corpo o veludo das notas de Bach. “A orquestra é meu piano”, confessou certa vez, ciente de dominar a impressionante capacidade de adaptação dada às espécies pela mãe natureza. Dos assentos de um teatro onde a Bachiana se apresenta, é possível perceber não apenas o virtuosismo na interpretação de um dos maiores compositores da história, como também a disciplina e paixão dos integrantes em busca da tão almejada excelência musical.

Bachiana em São João da Boa Vista (SP)


Nos bastidores, João Carlos Martins estuda mentalmente as partituras do repertório previsto para a próxima apresentação – autores do período barroco ao moderno, entre eles Bach, Mozart, Bhrams e Villa Lobos. Impossibilitado de manipular os manuscritos durante os espetáculos, ele dirige todos os concertos de cabeça. E o resultado é, além de um maestro preocupado com a perfeição técnica, um representante incomum da emoção humana. O objetivo não é modesto: colocar a orquestra nos patamares das mais reconhecidas do globo, aos moldes da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), regida pelo maestro John Neschiling e financiada por recursos públicos.

Já neste caminho, um dos êxitos da Bachiana é obter recursos totalmente privados em um país que classifica a cultura como última das prioridades. Mas superado este desafio, ainda resta o mais árduo de todos: possibilitar que a música clássica de qualidade seja um privilégio coletivo, e não apenas de uma seleta elite cultural. Um consolo para o impasse, no entanto, pode ser extraído do esforço de vida de Martins, cuja conseqüência é um sucesso visivelmente sonoro.

Tais Laporta

12.4.06

Reflexos da ilha das utopias

ARTES PLÁSTICAS

Jogadores de dominó - Jorge Arche

A ilha das utopias e seu polêmico regime comumente faz parte do noticiário político, mas sua cultura acaba por ficar em segundo plano. A literatura cubana já tem nomes reconhecidos como Guillermo Cabrera Infante, Pedro Juan Gutiérrez e Reinaldo Arenas. Já sua música foi consagrada com o documentário Buena Vista Social Club, dirigido por Win Wenders. Retrato de um grupo de músicos veteranos que caíram no ostracismo, entre eles Ibrahin Ferrer e o guitarrista Ry Cooder, foi indicado ao Oscar e ganhou prêmios da Associação de Críticos de Nova York, Los Angeles e Florida, além do Cinema Brasil. Mas sua arte plástica, ainda desconhecida, merece igual atenção por sua riqueza, diversidade e por se constituir um reflexo fiel das agruras de seu minúsculo país.

É ela que a exposição Arte de Cuba, patrocinada pelo CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), de São Paulo, objetiva apresentar, em 117 obras do acervo do Museu Nacional de Belas Artes da ilha e coleções particulares de seus artistas. Retratando os diversos movimentos modernistas cubanos, desde o início do século XX, a exposição inclui pinturas, fotografias, esculturas e instalações das décadas de 60, 70 e 80. As artes plásticas cubana pode ter seu começo decretado com a Exposicíon de Arte Nuevo, em 1927, quando a busca do país por sua identidade nacional se tornou mais veemente. Sempre buscando acompanhar a vanguarda européia, como qualquer país de terceiro mundo, em poucos momentos sua arte a supera e se firma como movimento inovador. Mas é a riqueza do retrato social de um país singular que a torna particularmente interessante.

O Mapa do Viajante - Carlos Garaicoa

Em seu início, na década de 30, esta arte se mostra quase mística, repleta de simbologias, cores pesadas e escuras. O surreal, o místico e paisagens bucólicas protagonizam telas de pintores como Eduardo Abela e Carlos Enriquez. A tela Lesbianas, de Enriquez, surpreende pela temática, inovadora para a época. Já os personagens de Portocarrero têm corpos grandes e musculosos e sofrem clara influência de Botero. É ainda nesta década que a colonização americana e revoltas populares contra o governo provisório de Céspedes se fazem presente em obras de autores como Marcelo Pogolotti e Aristides Fernández. O homem agora está dissolvido no coletivo e símbolos do comunismo e de resistência são notados em telas como Operários e Camponeses (1933), de Pogolotti, e nas belas aquarelas de Fernández, que retratam o sofrimento e isolamento do povo cubano no período, em telas como Engenho e Manifestação.

Jorge Arche e Victor Manuel retratam o povo pobre do campo e seus passatempos, em telas coloridas. É interessante destacar, a partir de suas obras, a miscigenação contínua do povo cubano, fruto da colonização. O camponês hispânico destes retratos posteriormente se tornará um povo majoritariamente afro-descendente. Os símbolos religiosos, conseqüentemente, também herdarão a cultura africana, a exemplo das telas de Roberto Diago e Wilfredo Lam. A santeria e elementos do candomblé podem ser observados em Virgem da Caridade (1946), de Diago, e em outros elementos da cultura afro, como uma máscara de pássaro, de Lam.

Força de trabalho - Marcelo Pogolotti

A exposição Diez Pintores Concretos, na década de 50, da qual participaram Sandu Darie, Luiz Martinez Pedro e Loló Soldevilla, é um dos momentos mais prementes de esforço de Cuba na tentativa de se igualar à arte européia, como um movimento próprio. Com o advento do abstracionismo, instalações inventivas, geometria, cores fortes e maior diversidade de materiais ganham força, em um período de rompimento com antigos movimentos. Apesar de se contituir em um período de experimentação, mesmo nele já vemos uma grande influência política, a exemplo da tela Homenagem a Fidel (1957), de Soldevilla. Dividida como dois tabuleiros de damas, um branco e outro preto, onde as peças têm diversos tamanhos, apesar de serem todas redondas, vemos a tentativa de se conceituar o então líder revolucionário, com reflexões como igualdade e inversão de valores.

Mas é a partir da revolução de 1959 que se revela o ‘grito’ da arte cubana. Muitos pintores começam a inverter conceitos da arte estadunidense, como a pop art de Andy Warhol. A foto de Marylin Monroe é trocada ironicamente pela do herói da independência nacional, José Marti, em Marti e a estrela (1966), de Raúl Martinez. Já as telas de Rafael Zarza são impactantes, tanto pelo seu tamanho, cores vibrantes e temática agressiva. Em O Grande Fascista (1973), contemplamos um expressionismo exacerbado, em uma tela onde um boi ‘general’ discursa para bois atentos. Suas expressões são caricaturais, de raiva e ódio, e seu fundo vermelho reforça a alusão ao regime. As telas em nanquim da série O amorfo e o desalentador (1968), de Santiago Armada, e a arte pop de Umberto Peña também merecem atenção por sua voracidade. Elas demonstram que o regime nunca foi unânime e discutem o que é a ilha após dez anos da revolução, através de desenhos com dizeres carregados de ironia e metáforas.

René Peña - White things

A mostra tem a limitação de conter poucas esculturas, fotografias e instalações, mas estas poucas demonstram excelente qualidade. Nas duas esculturas, de Raúl Martinez e Antonio Eiriz, o que chama atenção é a diversidade e criatividade de materiais de pouco valor, como colagens, cristais, madeira, masonite e metal. Já a instalação O Mapa do Viajante (2005), de Carlos Garaicoa, é inovadora. Em um grande painel branco, citações de diversos escritores ao redor do mundo, como Jorge Luis Borges, estão distribuídas como países. Cada uma delas descreve uma cidade, sem revelá-la. O contemplador, então, vai tecendo um mapa imaginário conforme vai ‘descobrindo’ a obra. Já a fotografia se revela na série de René Pena, nomeada White Things. Um homem afro-descendente segura objetos brancos em belas fotos em preto e branco. Mais uma crítica velada à colonização e ao racismo.

Mas o que mais resume o espírito da exposição são mesmo seus vídeos. São apenas três: um mostra sucessivamente, em câmara lenta, o corpo baleado do lendário Che Guevara; o segundo é uma imagem preto e branca de duas bandeiras sobrepostas que não param de tremular enquanto uma instalação de som assovia uma música acolhedora e, por fim, um casal de namorados, provavelmente nas ruas de Havana, brigam e se beijam, indefinidamente, apenas vigiados na rua pelo olhar oculto da câmara até que desaparecem de seu campo de visão, unidos, apesar das desavenças visíveis. É o persistente e bravo povo cubano. É o nacionalismo, ideologia e utopia resistentes às adversidades e tão característicos de Cuba. É a ilha. E sua cultura.

Marília Almeida

5.4.06

Fronteira invisível

CINEMA – DOCUMENTÁRIO

Quanto tempo leva para descobrir o Brasil? Pouco mais de uma hora, pelo menos para os que acompanharam um dos documentários nacionais exibidos no festival É Tudo Verdade. Na contramão de reportagens pretensamente inovadoras da TV aberta, que inflamam o telespectador com o círculo vicioso das mazelas urbanas (tráfico, prostituição, pobreza), alguns longa-metragens ainda têm fôlego para vasculhar os buracos negros de um país desconhecido. É o exemplo do bem-sucedido Do outro lado do rio, de Lucas Bambozzi, re-exibido em 2006 depois de receber o prêmio de melhor direção em outra edição do festival.

O diretor elegeu o ponto mais alto, e também obscuro, do mapa do Brasil: a cidade do Oiapoque, no Amapá, fronteira com a Guiana Francesa, colônia da França separada apenas por um rio do país tropical. O trajeto fluvial cujo destino é a cidade fronteiriça Saint Georges de L`Oyapock é sempre uma aventura que pode custar cabeças humanas. Isso porque, embora divisa aparente calmaria, a imigração somente é legal sob autorização, um privilégio raríssimo, situação semelhante à linha divisória do Texas (EUA) com o México. Brasileiros não são bem-vindos na colônia, embora a fronteira seja um abrigo quase exclusivo de refugiados, prostitutas, garimpeiros e aventureiros, responsáveis por tornar a língua portuguesa um dialeto dominante no território.

Bambozzi explora a sensibilidade dos personagens de forma gradativa e surpreendente, fazendo-nos acompanhar, do começo ao fim, histórias, sonhos e trajetos que começam bem e terminam quase sempre em tragédia ou decepção. São estereótipos marcantes: o refugiado do exército brasileiro que ganha a vida nos garimpos; a prostituta que foge da fazenda dos pais em busca de diversão e ouro; o travesti que sonha com a ascensão em Paris; a mocinha pobre que procura um francês para se casar. Quase todos desconhecem a magnitude da situação política e econômica da colônia por onde transitam sem permissão. Rica em recursos naturais, a terra atrai homens aos garimpos em troca de recompensas promissoras, o ouro, moeda corrente da região, depois do Euro. É comum a saga de homens que deixam famílias para se aventurar nas selvas da colônia, de onde não raramente jamais regressam.

Soa inacreditável, mas a “França”, destino dos sonhos de muitos aventureiros, nada mais é que Caiena, a capital da Guiana Francesa, um reduto de turistas europeus e abrigo da Estação Espacial Européia, cercado por uma população indesejável e marginalizada, sobretudo imigrantes brasileiros e latinos. Reconhecida como terra natal de poucos, a capital possui 50 mil habitantes, dos quais 20 mil são estrangeiros. Mas a ignorância e ausência de leis está mesmo na divisa entre territórios inexplorados. No Oiapoque, andar armado é uma necessidade individual de prevenção, tanto que lojas de pistolas ficam abertas como camelôs. Não é por poucos motivos, afinal, que pessoas chegam e desaparecem a todo momento sem qualquer explicação.

A equipe do documentário, com o apoio do governo francês – TV Cannes – e leis de incentivo brasileiras, mergulhou a fundo nas entranhas dessa realidade, como é notável pelos longos meses em que acompanharam os personagens da região. Grande trabalho de apuração e edição. O Brasil precisa de filmes produzidos com semelhante coragem e iniciativa para se descobrir novamente.

Tais Laporta

4.4.06

É tudo real, sim, senhor

CINEMA - DOCUMENTÁRIO

Aimar Labaki, diretor-fundador do festival anual de documentários É tudo verdade, trouxe pela primeira vez, à sua edição de 2006, um especial com apenas uma temática. Em sua 11º edição, realizada em São Paulo de 23 de março a 2 de abril, o especial O Estado das Coisas, caracterizado em edições anteriores pela variedade de estilos, foi nomeado destas vez Era do Medo. A mostra visou retratar as várias faces do terrorismo, guerras e genocídios mundiais presentes nos conflitos geopolíticos a partir do término da Guerra Fria. Não é uma visão reducionista, que explora somente o terrorismo que amedrontou os Estados Unidos no 11 de setembro ou nos comflitos subsequintes no Afeganistão e Iraque. As produções vão além e mostram conflitos que acontecem debaixo do nosso nariz, mas para o qual nós e os grandes noticiários não damos a devida atenção.

Ruanda, Kosovo, Srebrenica, Timor Leste, Chechênia e Haiti são exemplos de guerras ofuscadas pela ofensiva americana e sua guerra do terror, mas que perduram, seja em um continente arrasado ou na memória de sobreviventes que clamam por uma justiça que nunca chega. São exemplos produções como Srebenica nunca mais?, Mate-os todos – História de um genocídio “sem importância” e Aristide e a revolução sem fim. Já o cotidiano pós-guerra no Iraque, o eterno conflito entre Israel e Palestina e as dúvidas e teses sobre a guerra do terror estadunidense podem ser conferidos nos contundentes À Sombra das Palmeiras, Vingue Tudo mas deixe um de meus olhos e O poder dos pesadelos.

Desmet: múltiplas visões sobre múltiplos conflitos Bálcãs

Representante do primeiro grupo, a antiga Iugoslávia e sua fragmentação sistemática, provocadora de crimes contra a humanidade, ainda surte efeito em seus habitantes, retratados em Alguém tem um plano?. Produção conjunta de diversos países Bálcãs finalizada neste ano e dirigida por Lode Desmet, é o retrato da luta pela independência de Kosovo, após seu enquadramento como província da Sérvia. Repleta de refugiados, a província ainda conta com uma estrutura precária, carente de serviços básicos, como eletricidade. O documentário coloca 17 cidadãos comuns de Kosovo, Sérvia e países vizinhos frente a frente com autoridades políticas dos diversos países da região, seja por meio de uma tela de cinema, uma televisão pública em Belgrado, capital da Sérvia; ou jogos de câmera que focam o ouvinte enquanto a fala do inquirido é ouvida no áudio. Eles perguntam qual será o futuro de Kosovo em diversos aspectos. A discussão é labiríntica e heterogênea, não podendo se dividir apenas em quem quer a independência e os contrários a ela, mas em conflitos eternos que envolvem rancor por atrocidades cometidas e a sempre polêmica 'ajuda' internacional. Com bela fotografia, sua dinâmica é enriquecida por estas múltiplas visões.

Zarqawi: dez milhões em recompensa oferecidos pelos EUA

Já em Zarqawi – A questão terrorista, documentário francês produzido em 2005 por Patrice Barrat, Najat Rizk e Ranwa Stephan, é contado o histórico do terrorista islâmico Abu Musab Al Zarqawi. Ele foi condenado à morte pela Jordânia em fevereiro, acusado de supervisionar atentados com homem bomba contra alvos estadunidenses e do governo de sua terra natal. O documentário tem como base outro, feito por um jornalista da Jordânia, Fuad Hussein, que conheceu Zarqawi na prisão, nos primeiros anos da década de 90. Tido como principal operador militar da Al Qaeda, Zarqawi chegou a ser considerado pelos EUA o mais procurado terrorista após o 11 de setembro, juntamente com Bin Laden e, principalmente, por seus atentados no Iraque. Com depoimentos de analistas, Hussein e colegas, vídeos de Zarqawi em uma situação familiar, o casamento de sua irmã, e de um jovem homem-bomba recrutado pela Jihad Islâmica, sorrindo diante da morte no dia seguinte, são marcantes. A pouco explorada discussão e revelação de mecanismos de difusão da ideologia da Jihad pela Internet, que inclui vídeos de decapitações, também é o ponto forte da produção. A imagem de terrorista condenado à morte mais de uma vez (o assassinato de um diplomata norte-americano, em 2002), ao lado de fatos de sua infância pobre, se entrecruzam, enternecem e revoltam na tentativa de compreensão do terrorismo.

Considerado o principal evento dedicado à cultura do documentário na América do Sul, É Tudo Verdade exibiu 111 filmes, entre longas, curtas e médias, e teve número recorde de inscritos: 956. O festival também teve uma edição carioca e uma seleção de seus destaques será exibida em Brasília e Campinas neste mês. Em 2007, Aimar Labaki pretende voltar com a pluralidade temática do especial do festival e afirma que, atualmente, o documentário se constitui um sub-gênero. Dupla pena. A temática, infelizmente, é uma tendência mundial, aparenta ser fonte inesgotável de material e não deveria sair do foco das câmeras tão cedo. Já o documentário, principalmente as produções internacionais, por sua vez, poderia adentrar um pouco mais nas salas de cinema para mostrar estas questões, que não podem ser vistas pela TV de maneira aprofundada e crua, a um público bem maior. Seria uma dupla divulgação, emergencial na era moderna. A do medo.

Marília Almeida

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